Orikom
Inteligência Social para o Debate Público
Relatório de análise de mídias sociais
redes sociais, portais de notícias e anúncios políticos

Marielle Franco

21/09/2026 · período analisado: 01/05/2026 a 22/09/2026 · 70 gráficos
MARIELLE FRANCO COMO TERMÔMETRO DA DEMOCRACIA BRASILEIRA: O NOME QUE MIGROU DA MEMÓRIA PARA A DISPUTA Este relatório examina a qualidade do debate público brasileiro em torno do nome de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 2018, para construir a base empírica de um índice qualitativo sobre democracia. O recorte abrange as menções ao nome e às suas âncoras — Marielle Franco, justiça por Marielle, Instituto Marielle Franco, caso Marielle, legado de Marielle — entre 1º de maio e 22 de setembro de 2026, distinguindo quatro conversas: o nome em geral, a justiça, a memória e a mobilização, e o encontro do nome com o campo dos direitos humanos. A análise mobiliza o Modelo de Análise de Papéis Actancial-Morais (MAPAM), que identifica quem o autor atribui como vítima, agressor, protetor, reparador, comunidade ou estrutura; as fundações morais da Teoria das Fundações Morais (MFT), que mede os polos virtuosos e de violação acionados no discurso; os valores de Schwartz e os valores republicanos; além de posicionamento, valência, emoções, enquadramentos e vulnerabilidade democrática. Os resultados revelam uma inversão decisiva: em agosto, o apoio respondia por 58% do engajamento e a oposição por 18,9%; em setembro, a oposição salta para 76,4% e o apoio despenca para 8,4%. A valência negativa, que em agosto cedera ao positivo (61%), retorna dominante em setembro com 85,5%. A indignação, que em julho concentrava 89,7% do engajamento, recua para 42,6% em setembro, enquanto desprezo (17,9%) e medo (10,6%) ganham corpo. O enquadramento de ameaça à democracia assume a liderança em setembro com 26,1%, seguido de corrupção moral (24,4%), deslocando a violência de gênero, que recuara de 20% em agosto para 7,3%. O nome de Marielle deixou de operar como consenso memorial e passou a funcionar como campo de disputa: o índice de democracia deve medir não a presença do nome, mas a direção do discurso que o carrega, e a conclusão central é que a memória de Marielle migrou de significante de celebração para termômetro da integridade institucional, exigindo que o índice incorpore a razão entre apoio e oposição como componente decisivo.

FICHA METODOLÓGICA E SOBRE A PLATAFORMA

SOBRE A PLATAFORMA

A Orikom, plataforma de inteligência social da IPSE Global, acompanha diariamente o debate público brasileiro sobre política, clima e democracia em redes sociais, imprensa e anúncios políticos, e lê cada publicação com um conjunto de modelos de análise do discurso. Os painéis e relatórios do Laboratório cruzam esses modelos com apoio da Ori, a inteligência analítica da plataforma.

O QUE SE MONITORA

Redes e plataformas: Instagram, TikTok, X e YouTube; a Meta Ads, com o que foi veiculado como anúncio no Instagram, no Facebook, no Threads, no Messenger, no WhatsApp e na rede de parceiros da Meta; e a imprensa — os principais portais do país, mais tudo o que sai no Google News e no Bing. A coleta é contínua, por perfil e por palavra-chave: 4.446 perfis em coleta dedicada (Instagram 1.635, TikTok 891, X 828, YouTube 679) e 531 coletas por palavra-chave, sobre uma taxonomia de 7.320 termos em 58 temas e 283 subtemas (1.467 ativos no ciclo do momento e 772 em reserva, com termos emergentes entrando a cada cinco horas). Na imprensa, cerca de 900 veículos com cobertura recorrente.

Quem: todos os candidatos nacionais e estaduais de 2026 da lista oficial do TSE; os eleitos para presidente, governador, senador e deputado; os ministros nomeados; os perfis institucionais de órgãos públicos; influenciadores; e as mídias tradicionais e alternativas — 14.910 candidatos de 2026 da lista oficial do TSE, com 32.693 perfis declarados nas redes, entram tanto na coleta quanto na classificação. Quem fala e quem é citado são reconhecidos por um cadastro de 36.536 entidades: 19.994 candidatos e políticos (TSE), 2.939 pessoas, instituições e veículos do debate, e 13.603 entidades vindas do Wikidata (5.649 órgãos públicos, 5.602 lugares com código IBGE e 2.352 vozes digitais com ocupação e redes).

COMO SE CLASSIFICA

Cada publicação é lida por 19 modelos analíticos em 30 blocos de classificação, 43 dimensões de leitura e 16 métricas de exposição: tema e subtema; tipo de autor (político, influenciador, mídia, órgão público, cidadão comum); entidades citadas (pessoas, instituições, veículos, lugares, marcas); sentimento e emoções; enquadramentos genéricos e específicos; posicionamento (apoio, oposição, relato); as sete fundações morais de Haidt com o polo acionado; valores de Schwartz; visões de mundo de Kahan; papéis atribuídos (MAPAM, da IPSE); confiança, coragem, força e esperança atribuídas ao ator (CCFE, da IPSE); valores republicanos; padrão de confiança institucional; polarização (tipo e grau); causalidades atribuídas; tipos de desinformação; tipos de engajamento político; exigência de prova; permeabilidade e vulnerabilidade democrática. Os rótulos descrevem o que cada texto diz — retratam o debate público, não a opinião do eleitor.

ESTE RECORTE

Relatório “Marielle Franco” com 70 gráficos; período: todo o histórico da base, com 21 séries dos últimos 7 dias, dia a dia. Recorte comum aos gráficos — termos no texto: Marielle Franco, Marielle Francisco da Silva, Marielle da Silva Franco, vereadora Marielle, Marielle PSOL, justiça por Marielle, Marielle presente, Instituto Marielle Franco, Agenda Marielle, caso Marielle, assassinato de Marielle, execução de Marielle, legado de Marielle, Lei Marielle Franco, Marielle e Anderson. Esse recorte envolve 1.249.731 interações (curtidas, comentários e compartilhamentos) de 849 autores distintos, em 1.287 publicações. A exposição é sempre medida por engajamento; as séries diárias são lidas em composição do dia; as composições percentuais fecham em 100%.

Ficha gerada em 22/09/2026; números de monitoramento atualizados em 2026-09-14.

Leituras complementares

1 · O nome de Marielle mês a mês: apoio, oposição e relato (composição de cada mês)
1 · O nome de Marielle mês a mês: apoio, oposição e relato (composição de cada mês)
  • Oposição
  • Apoio
  • Neutro informativo

Este gráfico mede a composição mensal do engajamento em torno do nome de Marielle Franco segundo o posicionamento — se o texto se coloca a favor, contra ou apenas relata o tema —, e o que ele revela é uma inversão brusca: em agosto de 2026, o apoio respondia por 58% do engajamento do mês, o relato por 23,1% e a oposição por 18,9%; em setembro, a oposição salta para 76,4%, o relato cai para 15,1% e o apoio despenca para 8,4%. Vale dizer: o mês em que o nome de Marielle mobilizou mais exposição foi também aquele em que ele passou a ser majoritariamente acionado contra o campo que o transformou em símbolo — o que, para um índice qualitativo de democracia, é o dado mais eloquente deste gráfico, porque mede não a presença do nome, mas a direção do discurso que o carrega. Os meses anteriores, de outubro de 2025 a julho de 2026, aparecem com percentuais zerados ou com o apoio em 100% em julho, o que descreve composições de meses de baixa mobilização, não a ausência do assunto; a leitura de tendência só se sustenta a partir de agosto, quando a distribuição entre os três posicionamentos ganha corpo.

O que este gráfico aporta ao índice é a evidência de que o nome de Marielle funciona hoje como campo de disputa, e não como consenso memorial: a passagem de um mês de maioria de apoio para um mês de maioria de oposição, com o relato encolhendo em ambos, indica que o discurso em torno do nome se deslocou da celebração e da informação para o confronto, e é essa razão entre apoio e oposição — não o volume — que deve entrar como componente do índice. Em termos de enquadramento, o gráfico não diz qual narrativa sustenta cada posicionamento, mas a magnitude da virada sugere que o nome deixou de ser evocado apenas por quem o reivindica e passou a ser evocado por quem o contesta, o que desloca o eixo da memória para o da polarização.

2 · O nome de Marielle mês a mês: o tom de quem o menciona
2 · O nome de Marielle mês a mês: o tom de quem o menciona
  • Negativo
  • Positivo
  • Neutro

O tom com que o nome de Marielle Franco é evocado inverteu-se ao longo de 2026: se em julho a valência negativa respondia por 93% do engajamento do mês e em agosto o positivo já era majoritário, com 61%, em setembro a negativa volta a dominar, com 85,5%, contra 9,1% de positiva e 5,3% de neutra. O gráfico mede a valência, o sentimento geral do texto, distribuída pela exposição que cada mês acumulou, e o que ele mostra é que o nome de Marielle deixou de ser consenso comemorativo e passou a ser campo de disputa: a memória da vereadora assassinada em 2018 é hoje acionada majoritariamente em textos de teor negativo, o que desloca o debate do registro do legado para o do conflito. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é direto: quando o nome de uma vítima da violência política é evocado sobretudo em chave negativa, o discurso público em que ele aparece carrega menos celebração e mais litígio — e é essa composição, não o volume, que interessa medir. Os meses anteriores, com percentuais residuais e composição indefinida, não permitem leitura de tendência; é a partir de julho que a série ganha corpo e revela o movimento, e é nele que o índice deve se apoiar.

3 · O nome de Marielle mês a mês: as emoções mobilizadas
3 · O nome de Marielle mês a mês: as emoções mobilizadas
  • Indignação
  • Esperança
  • Orgulho
  • Tristeza
  • Alegria
  • Raiva
  • Desprezo
  • Nojo
  • Medo
  • Surpresa

A série mensal das emoções mobilizadas pelo nome de Marielle Franco mostra uma inflexão decisiva: o campo afetivo que cerca o nome deixa de ser o da memória e passa a ser o da denúncia. Até junho de 2026, os meses registram apenas esperança, orgulho, alegria, tristeza e indignação, sem que nenhuma delas alcance participação expressiva no mês — composição difusa, compatível com um nome evocado sobretudo em chave de legado e homenagem. Em julho de 2026 a composição se adensa e se desequilibra: a indignação responde por 89,7% do engajamento do mês, o orgulho por 6,8%, a esperança por 3,1% e a tristeza por 0,4%. Em agosto o quadro se recompõe em torno de afetos afirmativos — esperança em 34,0%, orgulho em 30,8%, alegria em 10,9% —, mas já com desprezo em 10,4%, indignação em 9,9% e raiva em 2,9% ocupando espaço relevante. Em setembro, mês mais recente, a indignação volta a comandar, com 42,6%, seguida de desprezo em 17,9%, medo em 10,6%, surpresa em 9,0% e raiva em 8,0%, enquanto esperança (4,2%), orgulho (3,9%), tristeza (1,8%), alegria (1,3%) e nojo (0,8%) recuam para a cauda.

O que este gráfico aporta a um índice qualitativo de democracia é a evidência de que o nome de Marielle funciona hoje como catalisador de afetos negativos dirigidos — indignação, desprezo, medo, raiva —, e não mais como significante de luto ou de celebração. A emoção, na leitura de Jasper, é o combustível que converte percepção em ação política; quando a indignação e o desprezo passam a dominar a composição mensal, o nome deixa de operar como memória compartilhada e passa a operar como acusação — o que sugere um debate público em que a violência política contra a vereadora é mobilizada menos para honrá-la e mais para nomear o que se considera ainda impune. Para o índice, isso significa que a dimensão afetiva do discurso em torno do nome não mede apenas como se lembra de Marielle, mas como se avalia o estado das instituições que deveriam ter feito justiça: o deslocamento de esperança e orgulho para indignação, desprezo e medo é, ele mesmo, um indicador de desconfiança democrática.

4 · O nome de Marielle mês a mês: os enquadramentos em que ele aparece
4 · O nome de Marielle mês a mês: os enquadramentos em que ele aparece
  • Conflito povo vs. elite
  • Corrupção moral
  • Direitos e liberdades
  • Violência de gênero
  • Desigualdade estrutural
  • Racismo
  • Feminicídio
  • Guerra cultural
  • Justiça territorial
  • Abandono do Estado
  • Incompetência estatal
  • Defesa da ordem
  • Violência doméstica
  • Homofobia
  • Ameaça à democracia
  • Prova material / entrega
  • Crise/emergência climática
  • Soberania ameaçada
  • Misoginia
  • Espetacularização política
  • Crise concreta
  • Desordem social
  • Conflito nacional vs. global
  • Emergência sanitária
  • Métodos de contenção/mitigação
  • Ameaça à família
  • Oportunidade econômica

A série mensal dos enquadramentos específicos em que o nome de Marielle Franco aparece — enquadramentos específicos são os quadros de sentido próprios do debate brasileiro, como corrupção moral, ameaça à democracia ou violência de gênero — mostra que o nome deixou de ser citado sobretudo como memória de um crime para se tornar, nos meses recentes, um significante em disputa sobre a própria democracia. Até junho de 2026, os meses registram composições dispersas e de baixa densidade, com o nome comparecendo em quadros pontuais e sem concentração: desigualdade estrutural e direitos e liberdades reaparecem com frequência, violência de gênero e feminicídio surgem em alguns meses, e incompetência estatal, corrupção moral, conflito povo versus elite e ameaça à democracia aparecem de forma esparsa. Em julho de 2026, a composição muda de natureza: o conflito povo versus elite responde por 93,1% do engajamento do mês, e direitos e liberdades por 6,9% — ou seja, o nome é lido quase exclusivamente como símbolo de um antagonismo entre o povo e as elites, e não como caso de justiça ou de violência de gênero. Em agosto, a composição se abre: violência de gênero lidera com 20,0%, seguida de direitos e liberdades (17,8%), feminicídio (13,1%), conflito povo versus elite (10,7%), corrupção moral (7,8%), justiça territorial (7,2%), guerra cultural (6,2%) e desigualdade estrutural (4,3%), com ameaça à democracia, crise ou emergência climática, soberania ameaçada, abandono do estado, defesa da ordem, espetacularização política, misoginia, crise concreta, prova material entrega, racismo e incompetência estatal dividindo o restante. Em setembro, o eixo se desloca de novo: ameaça à democracia assume a liderança com 26,1%, corrupção moral vem em seguida com 24,4%, guerra cultural com 14,7%, incompetência estatal com 7,6%, violência de gênero com 7,3% e defesa da ordem com 4,7%. O que este gráfico aporta a um índice qualitativo de democracia é a evidência de que o nome de Marielle funciona como termômetro da qualidade do discurso democrático: quando o enquadramento dominante é o conflito povo versus elite, o nome é mobilizado como arma de antagonismo; quando ameaça à democracia e corrupção moral sobem ao topo, o nome passa a indexar a própria integridade das instituições. A trajetória sugere que a memória de Marielle é acionada de modo cambiante — ora como vítima de violência de gênero e do Estado, ora como símbolo de resistência contra elites, ora como prova da fragilidade democrática —, e que a composição dos enquadramentos em que o nome comparece mede menos o que se diz sobre Marielle do que o que se diz, através dela, sobre o país. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é direto: o mês em que o nome é capturado pelo conflito povo versus elite (93,1% do engajamento) e o mês em que ele é capturado pela ameaça à democracia (26,1%) e pela corrupção moral (24,4%) descrevem dois estados distintos do debate público, e a passagem de um ao outro, entre julho e setembro, indica que o nome de Marielle migrou de significante de antagonismo para significante de alerta institucional. A violência de gênero, que em agosto responde por 20,0% do engajamento do mês, recua para 7,3% em setembro, e o feminicídio, que em agosto aparece com 13,1%, some da composição de setembro — movimento que sugere que a leitura do nome como caso de violência de gênero perde espaço para a leitura do nome como sintoma de crise democrática. O gráfico, portanto, não mede a lembrança de Marielle: mede o uso público que se faz dela, e mostra que esse uso se desloca ao sabor da conjuntura, ora acionando a memória da violência de gênero, ora a denúncia da captura do Estado.

5 · O nome de Marielle mês a mês: vítima, agressora, protetora e reparadora (MAPAM)
5 · O nome de Marielle mês a mês: vítima, agressora, protetora e reparadora (MAPAM)
  • Vítima
  • Agressor
  • Protetor
  • Reparador
  • Comunidade
  • Estrutura

Este gráfico mede, mês a mês, a composição do engajamento em torno do nome de Marielle Franco segundo os papéis actanciais-morais que o MAPAM, o Modelo de Análise de Papéis Actancial-Morais, atribui a quem é citado — quem sofre o dano, quem o causa, quem deveria proteger, quem deve reparar, quem é afetado coletivamente e que estrutura reproduz a violência. O que ele mostra é uma assimetria estrutural do discurso: nos meses em que o nome ganha corpo no debate, a díade vítima-agressor concentra a quase totalidade da exposição, enquanto os papéis de reparação e de proteção ficam residuais. Em agosto de 2026, a vítima responde por 45,8% do engajamento do mês e o agressor por 38,9%, somando mais de quatro quintos da exposição, contra 9,2% do protetor, 4,0% da estrutura, 1,8% da comunidade e 0,3% do reparador; em setembro, a vítima sobe a 47,3% e o agressor recua a 42,0%, com o protetor caindo a 4,6%, o reparador a 3,9%, a estrutura a 1,4% e a comunidade a 0,8%. A leitura é direta: o nome de Marielle circula sobretudo como memória de um dano e como denúncia de quem o praticou, não como pauta de quem repara ou de quem protege. Para um índice qualitativo de democracia, isso é um achado substantivo — a qualidade do discurso em que o nome aparece é de acusação e luto, não de responsabilização institucional ou de reconstrução. Os meses anteriores a julho de 2026 aparecem com percentuais zerados por mês, o que indica que o recorte não trouxe engajamento classificável nesses papéis; a partir de julho, a composição se estabiliza na mesma proporção, com vítima e agressor dividindo o centro e os demais papéis na cauda. O gráfico, portanto, não mede volume de menções, mede o que se faz com o nome: e o que se faz, predominantemente, é lembrar a vítima e apontar o agressor.

6 · O nome de Marielle mês a mês: em que temas do debate ele circula
6 · O nome de Marielle mês a mês: em que temas do debate ele circula
  • Marielle Franco
  • Política, Estado, democracia e eleições
  • Segurança pública, violência, crimes e justiça criminal
  • Religião, espiritualidade, moralidades e guerra cultural
  • Gênero, mulheres, masculinidades e violência
  • Tecnologia, internet, plataformas, IA e desinformação
  • Economia, consumo, trabalho e renda
  • Raça, cor, etnia, antirracismo e desigualdades
  • Internacional, geopolítica, migração e conflitos globais

O gráfico mostra que o nome de Marielle Franco deixou de circular como assunto próprio e passou a circular dentro de outros temas do debate: em julho de 2026, 96,2% do engajamento do mês com o nome concentra-se no tema que leva o próprio nome, mas em setembro essa fatia cai a 55,1%, enquanto 44,1% migram para o tema de política, Estado, democracia e eleições — uma inversão de composição que indica que o nome, no mês corrente, é mobilizado sobretudo como repertório de uma disputa institucional, não como pauta autônoma. A série anterior a julho de 2026 é composta de meses em que o nome aparece residualmente em temas como segurança pública, direitos sociais e território, LGBTQIA+, raça e antirracismo, gênero e religião, sem percentual expressivo em nenhum deles; o salto de composição a partir de julho coincide com a entrada do nome no noticiário da Polícia Federal e do Supremo, e a leitura diária confirma o movimento: em 8 de setembro, quando o afastamento do diretor de inteligência da PF domina o dia, a participação do recorte no total salta para 1,6% e a oposição chega a 83% do posicionamento, com a indignação como emoção dominante. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é decisivo: o nome de Marielle funciona como marcador de qualidade institucional — quando migra do tema próprio para o tema de política e Estado, o discurso que o carrega é majoritariamente de oposição (63% no agregado), com desconfiança institucional em 77% e prestação de contas em 62% dos valores republicanos mobilizados, o que sugere que a memória da vereadora opera, no debate atual, como instrumento de cobrança sobre as instituições, e não apenas como homenagem.

7 · O nome de Marielle mês a mês: quem publica (tipo de ator)
7 · O nome de Marielle mês a mês: quem publica (tipo de ator)
  • Influenciador
  • Político
  • Mídia jornalística
  • Usuário genérico
  • Artista / cultura
  • Jornalista (perfil individual)
  • Movimento social
  • ONG / terceiro setor
  • Especialista
  • Empresa
  • Podcast / programa
  • Think tank

A série mensal do gráfico 7 mostra que, ao longo de todo o histórico, o nome de Marielle Franco só se torna um acontecimento de massa em 2026, e que, quando isso ocorre, a exposição ao nome se concentra em influenciadores e políticos, não na imprensa: em julho de 2026, os influenciadores respondem por 54,9% do engajamento do mês e os políticos por 35,2%, com a mídia jornalística em 5,9%; em agosto, os políticos passam a liderar com 35,9% contra 32,0% dos influenciadores, e a mídia jornalística sobe a 11,5%; em setembro, os influenciadores voltam à frente com 44,6%, os políticos ficam com 32,4% e a mídia jornalística com 11,4%. Antes disso, os meses registram apenas frações residuais, com a mídia jornalística aparecendo isolada em 2022 e uma composição mais dispersa em julho de 2023, quando políticos, especialistas, jornalistas individuais e influenciadores dividem a exposição. O que este gráfico mede é a composição do engajamento de cada mês por tipo de autor, ou seja, quem, ao publicar sobre Marielle, consegue exposição — e não quantos publicaram. A leitura que ele sustenta para um índice qualitativo de democracia é que a memória de Marielle, no período em que ganha escala, é disputada sobretudo por atores de opinião e por agentes políticos, com a imprensa ocupando uma fatia minoritária da exposição; a mudança de mês para mês, de influenciadores a políticos e de volta a influenciadores, indica que a saliência do nome responde a episódios e a iniciativas de comunicação desses atores, e não a uma presença estável da cobertura jornalística.

8 · O nome de Marielle mês a mês: o nível de vulnerabilidade democrática do que se publica
8 · O nome de Marielle mês a mês: o nível de vulnerabilidade democrática do que se publica
  • Média
  • Baixa
  • Alta

A série mensal que mede o nível de vulnerabilidade democrática do que se publica quando o nome de Marielle Franco é acionado — ou seja, o quanto as normas democráticas aparecem em disputa no próprio texto, e não apenas o volume de citações — sustenta a tese de que o nome de Marielle funciona, ao longo de todo o histórico, como um marcador de qualidade democrática do discurso, e não como um assunto de ocasião: a composição mensal do engajamento por grau de vulnerabilidade democrática é o que permite acompanhar, mês a mês, se o nome é mobilizado para defender a ordem democrática ou para atacá-la, e é exatamente esse movimento de composição que um índice qualitativo de democracia precisa capturar. Como a leitura é de composição e não de volume, o que interessa não é quanto se falou de Marielle em cada mês, mas que fatia do engajamento de cada mês foi para textos de vulnerabilidade baixa, média ou alta; a evolução dessa partição ao longo do histórico é o dado que este gráfico aporta ao índice, porque mostra se o nome de Marielle desliza, no discurso público, da condição de símbolo de reparação democrática para a de objeto de disputa sobre a própria democracia.

O que este gráfico acrescenta ao índice é, portanto, uma medida de composição e de tendência, não de intensidade: ele diz que a vulnerabilidade democrática do discurso em torno do nome de Marielle é uma variável que se move, e que o índice deve lê-la como série — um mês em que a fatia de alta vulnerabilidade cresce no engajamento total daquele mês indica que o nome está sendo usado para tensionar as normas democráticas, ainda que o volume permaneça estável; um mês em que a fatia de baixa vulnerabilidade cresce indica o inverso, o nome operando como defesa institucional e memória. É essa partição mensal, e só ela, que permite ao índice distinguir dois fenômenos que o volume confunde: o crescimento da conversa sobre Marielle e a mudança de natureza dessa conversa.

9 · Últimos 30 dias: apoio, oposição e relato, dia a dia
9 · Últimos 30 dias: apoio, oposição e relato, dia a dia
  • Oposição
  • Apoio
  • Neutro informativo

A série diária de posicionamento sobre o nome de Marielle Franco nos últimos 30 dias mostra um debate de composição instável, em que o apoio e a oposição se alternam como polo dominante de um dia para o outro, e não um campo de posições estáveis: o que se observa é uma alternância brusca entre dias de hegemonia do apoio e dias de hegemonia da oposição, com o relato informativo aparecendo apenas em janelas específicas. Nos primeiros dias do recorte, o apoio concentra quase toda a composição — 93,5% do dia 21 de agosto e 97,9% do dia 22 —, mas a partir de 23 de agosto a oposição assume o comando e chega a 84,3%, 92,0% e 73,2% nos três dias seguintes; o padrão se repete em ondas: o apoio volta a dominar em 31 de agosto (96,9%) e em 12 de setembro (93,4%), enquanto a oposição retoma a dianteira em 27 de agosto (90,5%), 1º de setembro (84,4%), 3 de setembro (100,0%), 4 de setembro (98,5%), 6 de setembro (85,4%), 7 de setembro (99,9%), 8 de setembro (84,3%), 9 de setembro (79,8%) e 10 de setembro (93,9%). O relato informativo, por sua vez, não é residual: ele domina dias inteiros — 80,7% em 28 de agosto, 77,2% em 5 de setembro e 69,2% em 11 de setembro —, o que indica que a cobertura factual do caso, e não a tomada de posição, ocupa fatias relevantes da conversa em determinados momentos.

Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico é decisivo porque mede não a intensidade da menção, mas a direção do discurso em que o nome aparece — e o que ele revela é uma opinião pública em que a defesa de Marielle e a contestação a ela se enfrentam em ciclos curtos, com o polo opositor alcançando hegemonia em mais dias do que o polo apoiador. A alternância sugere que o nome de Marielle funciona como marcador de clivagem: quando o apoio domina, a conversa tende a se organizar em torno de memória, legado e justiça; quando a oposição domina, o nome é apropriado como objeto de disputa política, e a composição do dia se desloca para o ataque. A presença expressiva do relato informativo em dias isolados — 28 de agosto, 5 e 11 de setembro — sinaliza que o debate também se recompõe em torno da cobertura do caso, o que, para o índice, indica que a qualidade democrática do discurso sobre Marielle não se mede apenas pela proporção de apoio, mas pela capacidade de o campo informativo sustentar-se sem ser engol ido pela polarização. Vale registrar que os dias de maior peso relativo do relato informativo não coincidem com os de maior hegemonia de qualquer dos polos, o que reforça a leitura de que a cobertura factual e a tomada de posição ocupam espaços distintos na conversa. O que este gráfico aporta ao índice é, portanto, uma medida de direção e de volatilidade: não basta saber quanto se fala de Marielle, mas em que registro se fala, e a série mostra que esse registro muda de um dia para o outro, com o apoio e a oposição se revezando na dianteira e o relato informativo emergindo como terceiro polo em janelas pontuais.

10 · Últimos 30 dias: as emoções, dia a dia
10 · Últimos 30 dias: as emoções, dia a dia
  • Indignação
  • Raiva
  • Desprezo
  • Esperança
  • Orgulho
  • Alegria
  • Nojo
  • Tristeza
  • Surpresa
  • Medo

A série diária das emoções associadas ao nome de Marielle Franco, medida em participação no engajamento de cada dia, mostra que o campo afetivo do debate se parte em dois regimes que se alternam conforme o que está em pauta: um de celebração e um de denúncia. Nos primeiros dias do recorte, em 21 e 22 de agosto, a esperança responde por 65,6% e 42,5% do engajamento do dia, com a alegria em 33,4% e 27,9% e o orgulho subindo de 0,6% para 25,4% — composição de memória afirmativa, em que o nome aparece como legado e não como perda. A partir de 23 de agosto o eixo vira: indignação, desprezo e raiva passam a dividir quase todo o engajamento diário, com a indignação chegando a 55,3% em 27 de agosto e o desprezo a 96,5% em 24 de agosto, enquanto a esperança cai a 5,2% e 1,6% nesses mesmos dias. O contraste é o achado do gráfico: quando o nome de Marielle é acionado pela via da memória, o discurso se organiza em torno de esperança, alegria e orgulho; quando é acionado pela via da justiça e da impunidade, o mesmo nome convoca indignação, desprezo e raiva, e a tristeza só aparece com peso em 26 e 27 de agosto, em 22,1% e 8,0% do engajamento do dia. Para um índice qualitativo de democracia, isso significa que o nome de Marielle funciona como termômetro afetivo de duas dimensões distintas — a celebração do legado e a cobrança de responsabilização —, e que a passagem de uma à outra não é gradual, é brusca, o que sugere que o debate sobre o nome é pautado por episódios, não por acumulação. O pico de orgulho em 31 de agosto, quando essa emoção concentra a totalidade do engajamento do dia, e a entrada da surpresa em 1º de setembro, com 22,1%, indicam que o campo afetivo do nome segue sensível a eventos que reconfiguram o tom de um dia para o outro, o que reforça a leitura de que a qualidade democrática do discurso em torno de Marielle depende menos de uma disposição estável e mais do que cada episódio faz o nome significar.

11 · Últimos 30 dias: os enquadramentos, dia a dia
11 · Últimos 30 dias: os enquadramentos, dia a dia
  • Violência de gênero
  • Feminicídio
  • Corrupção moral
  • Conflito povo vs. elite
  • Guerra cultural
  • Direitos e liberdades
  • Espetacularização política
  • Desigualdade estrutural
  • Prova material / entrega
  • Crise/emergência climática
  • Soberania ameaçada
  • Ameaça à democracia
  • Abandono do Estado
  • Misoginia
  • Justiça territorial
  • Defesa da ordem
  • Crise concreta
  • Incompetência estatal
  • Racismo
  • Emergência sanitária
  • Desordem social
  • Homofobia
  • Ameaça à família
  • Oportunidade econômica
  • Conflito nacional vs. global
  • Métodos de contenção/mitigação

Os enquadramentos específicos que organizam o discurso em que o nome de Marielle Franco aparece não formam uma constelação estável: eles oscilam ao sabor do episódio, e é essa oscilação que o gráfico mede. Enquadramento, aqui, é o modo pelo qual o texto recorta o assunto — e o que a série diária dos últimos 30 dias mostra é que o nome de Marielle funciona como um significante que se desloca entre repertórios distintos conforme o que está em jogo naquele dia. Em 21 de agosto, o dia se organiza pela corrupção moral (42,3% do engajamento do dia), com defesa da ordem, guerra cultural, conflito povo versus elite, desordem social, crise concreta e ameaça à democracia dividindo o restante em fatias menores e quase iguais. Em 22, a composição vira: direitos e liberdades lidera com 27,8%, seguido de conflito povo versus elite (22,1%), violência de gênero (21,8%) e feminicídio (19,8%) — o nome de Marielle, nesse dia, é lido sobretudo como caso de violência contra a mulher e de desigualdade de poder. Em 23, corrupção moral, violência de gênero e feminicídio empatam em 23,0%, com conflito povo versus elite logo atrás (22,9%). Em 24, um único enquadramento captura quase todo o engajamento do dia: espetacularização política responde por 90,3%, com guerra cultural em 6,5% — o nome de Marielle, nesse dia, é absorvido pela lógica do espetáculo. Em 25, volta o tripé corrupção moral, violência de gênero e feminicídio (27,3%, 27,3% e 27,2%), com guerra cultural em 11,3%. Em 26, violência de gênero e feminicídio saltam para 49,9% e 48,6%, praticamente sozinhos. Em 27, a composição se dispersa em muitos enquadramentos com peso semelhante — corrupção moral, guerra cultural, ameaça à democracia, desigualdade estrutural, crise ou emergência climática, abandono do estado e soberania ameaçada, todos em 11,2% —, com violência de gênero em 7,5% e misoginia em 5,9%. Em 28, violência de gênero e feminicídio voltam a dominar (34,7% cada), com corrupção moral em 12,8%.

O que este gráfico aporta a um índice qualitativo de democracia é a evidência de que o nome de Marielle não é um marcador estável de um único repertório democrático: ele é atravessado por enquadramentos que vão da violência de gênero e do feminicídio — os mais recorrentes ao longo da série — à corrupção moral , à espetacularização política e à ameaça à democracia. Essa dispersão importa para o índice porque revela que a qualidade democrática do discurso em que o nome aparece não depende apenas de quem fala, mas de qual repertório o episódio convoca: nos dias em que violência de gênero e feminicídio concentram o engajamento, o nome de Marielle é mobilizado como denúncia de uma estrutura que mata mulheres e, nesse registro, o discurso tende a nomear a violação e a exigir reparação; nos dias em que corrupção moral e espetacularização política dominam, o mesmo nome é arrastado para uma gramática de escândalo e de conflito, em que a vítima cede lugar ao caso e a denúncia cede lugar ao espetáculo. A série diária, portanto, não mede apenas a presença do nome: mede a volatilidade do seu significado, e é essa volatilidade — a passagem de um dia em que o feminicídio responde por quase metade do engajamento para outro em que a espetacularização política responde por mais de nove décimos — que um índice qualitativo de democracia precisa capturar, porque um nome que deveria ancorar uma memória de luta por direitos não pode ter seu sentido sequestrado, dia a dia, pela lógica do caso, do escândalo ou do espetáculo.

12 · Últimos 30 dias: os subtemas em que o nome circula, dia a dia
12 · Últimos 30 dias: os subtemas em que o nome circula, dia a dia
  • Caso Marielle: investigação, julgamento e mandantes
  • Marielle Franco: nome, memória e mobilizações
  • Feminismo, direitos das mulheres e igualdade de gênero
  • Empreendedorismo, MEI, pequenos negócios e economia popular
  • Reformas legais, direitos, leis e mudanças institucionais
  • Crimes violentos, roubos, furtos, latrocínios e homicídios
  • Milícias, narcomilícias, extorsão e poder econômico armado
  • Geopolítica, guerras, BRICS e ordem internacional
  • Feminicídio, violência doméstica e proteção às mulheres
  • Escândalos e disputas do ciclo 2026
  • Política nacional, governo federal e escândalos públicos
  • Tráfico de drogas, facções, narcotráfico e sistema prisional
  • Armas, desarmamento, CACs, bancada da bala e política penal
  • Ações afirmativas, cotas e representação política

A série diária dos últimos 30 dias mostra que o nome de Marielle Franco circula em dois registros que se alternam conforme o episódio da semana, e não num só: a memória e a mobilização, de um lado, e o caso judicial, de outro, com a memória ocupando a maior parte dos dias e o caso voltando ao centro quando a Polícia Federal entra em cena. Nos primeiros dias do recorte, a memória domina quase integralmente a composição do dia, com o caso aparecendo em fração pequena; a partir de 27 de agosto a relação se inverte por um dia, quando o caso chega a pouco mais da metade do dia, e volta a recuar; em 8 de setembro, o dia em que o afastamento de um diretor da Polícia Federal que atuou no caso Marielle domina o noticiário, o caso sobe a cerca de um quinto do dia e a memória cai a pouco mais de um décimo, num movimento que se repete, em menor escala, em 9 e 10 de setembro. O que este gráfico acrescenta a um índice qualitativo de democracia é a demonstração de que o nome de Marielle funciona como um marcador sensível a episódios institucionais: quando a disputa em torno da Polícia Federal e do Supremo ocupa o debate, o caso desloca a memória; quando o episódio arrefece, a memória retoma a quase totalidade do dia. A composição diária, portanto, não mede apenas lembrança, mede também o quanto o nome é convocado como prova de que a democracia está em disputa.

13 · Quem publica sobre Marielle e com que posicionamento
13 · Quem publica sobre Marielle e com que posicionamento
  • Oposição
  • Apoio
  • Neutro informativo

O gráfico mostra que a defesa do nome de Marielle Franco é, antes de tudo, uma operação de oposição: entre os influenciadores, 76,5% do engajamento que produzem sobre o tema se dá em publicações de oposição, contra 12,1% de apoio e 11,4% de teor neutro ou informativo; entre os políticos, a oposição responde por 70,9% do engajamento do próprio grupo, e o apoio por 29,1%. Lidos pela composição de cada segmento, os números revelam a assimetria que interessa a um índice qualitativo de democracia: a oposição concentra 46,5% de todo o engajamento do recorte entre influenciadores e 42,6% entre políticos, enquanto o apoio, quando vem de político, é quase todo interno ao campo — 56,4% de tudo que se engaja como apoio no gráfico sai de perfil político. A mídia jornalística é o ator mais monocromático: 96,5% do engajamento que ela gera é de teor neutro ou de relato, com apenas 2,6% de apoio e 0,9% de oposição, o que é o esperado do gênero, mas importa ao índice porque indica que o nome de Marielle circula na imprensa como pauta de cobertura, não como bandeira. Fora desse eixo, os movimentos sociais e as organizações do terceiro setor aparecem quase inteiramente em apoio — 99,3% e 100,0% do engajamento de cada grupo, respectivamente —, e os usuários comuns se dividem de modo mais equilibrado, com 59,1% de oposição, 24,2% de neutro e 16,7% de apoio.

Para um índice qualitativo de democracia, o dado é ambíguo e por isso valioso: de um lado, a concentração da conversa em chave de oposição sugere que o nome de Marielle funciona como marcador de clivagem, mobilizando mais quem se posiciona contra algo do que quem celebra ou informa; de outro, a presença de um bloco de apoio estável, ainda que minoritário no engajamento, e a quase ausência de oposição declarada na imprensa e nos movimentos apontam para um campo de disputa assimétrico, em que a memória é defendida por poucos atores com alta intensidade e atacada por um bloco difuso de influenciadores e políticos. O gráfico, portanto, não mede se o debate é democrático em abstrato: mede quem sustenta a memória e quem a contesta, e mostra que a contestação, em exposição, supera o apoio.

14 · Prevalência, não volume: quantos autores DISTINTOS de cada tipo falam do nome
14 · Prevalência, não volume: quantos autores DISTINTOS de cada tipo falam do nome

A conversa sobre Marielle Franco é sustentada sobretudo por vozes difusas e por influenciadores, e não por instituições: entre os autores distintos que mencionam o nome em todo o histórico, pouco mais da metade é de usuários comuns e quase um quinto é de influenciadores, enquanto políticos respondem por cerca de um oitavo e a mídia jornalística por aproximadamente um décimo, com artistas, jornalistas individuais, organizações da sociedade civil, especialistas, movimentos sociais, think tanks, empresas, órgãos públicos e podcasts somados na cauda estreita do gráfico. O dado que importa não é o volume, mas a prevalência de discurso: mede-se quantos perfis distintos adotam o nome, e o retrato mostra que a memória de Marielle circula como causa cívica difusa, apropriada por muitos atores pulverizados, e não como pauta conduzida por instituições — o que, para um índice qualitativo de democracia, é ambíguo e revelador: de um lado, indica vitalidade participativa e capilaridade social do nome; de outro, revela que os portadores institucionais da memória — Legislativo, Judiciário, órgãos públicos, partidos — quase não figuram entre quem fala, de modo que a disputa por justiça e por legado se dá mais na sociedade do que nas arenas formais da democracia.

15 · Quem mais influencia o debate sobre Marielle, aberto por posicionamento
15 · Quem mais influencia o debate sobre Marielle, aberto por posicionamento
  • Oposição
  • Neutro informativo
  • Apoio

A exposição ao nome de Marielle Franco concentra-se em vozes de oposição, e a leitura informativa da grande imprensa, embora numericamente menor, é a que mais rende por autor. É o que este gráfico mostra ao ordenar os autores por engajamento total — curtidas, comentários e compartilhamentos somados, medida de exposição — e abrir cada um pelo posicionamento que adota diante do tema: oposição, neutro informativo ou apoio. Entre os cinco autores mais engajados, quatro são de oposição: Vinicios Betiol responde por 10,8% do engajamento do recorte, Samuel Batista por 10,2%, Lázaro Rosa por 10,0% e Márcio Jerry por 8,0%; Ricardo Cappelli, com 8,1%, e Cleber Lourenço, com 7,0%, completam o bloco. A BBC News Brasil, com 7,7% do total, é a única voz informativa a rivalizar com esse pelotão, e o faz com eficiência notável: dentro do próprio segmento neutro informativo, responde por 36,3% do engajamento, contra 23,4% de Bastidores do Rio, 21,6% da CHOQUEI e 18,7% do Jornal O Globo. Vale dizer: a imprensa não domina o volume, mas domina a conversão por perfil.

O dado mais eloquente, porém, é a duplicidade de dois autores. Samuel Batista e Lázaro Rosa aparecem duas vezes, uma em oposição e outra em apoio, e a distribuição revela onde cada um investe: Samuel Batista concentra 86,9% de sua produção na oposição, que lhe rende 13,7% do engajamento do segmento, contra 13,1% na base de apoio, que responde por 32,5% do segmento respectivo; Lázaro Rosa segue o mesmo padrão, com 75,9% na oposição e 24,1% no apoio. Ou seja: o apoio existe, mas é minoritário até entre quem o pratica. Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico aporta uma evidência incômoda: o nome de Marielle, assassinada em 2018 e cujo caso segue em julgamento, mobiliza mais a gramática do antagonismo do que a da homenagem, e a exposição que ela gera é majoritariamente capturada por quem fala contra algo — o que sugere que a memória da vereadora funciona, no debate público, menos como consenso civilizatório e mais como campo de disputa.

16 · As publicações que mais circularam com o nome de Marielle

Ordenadas por interações no recorte do quadro.
#PublicaçãoInterações ▾Alcance
1 André Mendonça não afastou apenas o Direitor-geral da Polícia Federal. Ele afastou também o diretor da PF responsável por resolver o caso Marielle e por investigar a corrupção no governo Cláudio Castro. A propósito, quem é esse sujeito na foto com o Mendonça? https://t.co/3mk4UmYVinicios Betiol · Político · Twitter/X · 2026-09-08Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo · Indignação · Surpresa 13.329 66.536
2 O diretor da PF afastado por André Mendonça atuou diretamente em investigações históricas, incluindo caso Marielle e os escândalos do Cláudio Castro. Mexer na PF para atingir quem investiga poderosos é um ataque ao Estado de Direito. MENDONÇA GOLPISTA https://t.co/tTpF6d5FlOLázaro Rosa 🇧🇷 · Influenciador · Twitter/X · 2026-09-08Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo · Indignação 12.812 39.807
3 Leandro Almada, afastado da inteligência da PF, é o cara que desvendou o caso Marielle. Entendeu, né? Há uma guerra aberta em curso. Se os tais "documentos apócrifos" não prestam para nada, porque prestam para afastar o Diretor da PF? É preciso reagir. Situação gravíssima.Ricardo Cappelli · Político · Twitter/X · 2026-09-08Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo · Indignação · Medo 10.344 27.978
4 RT @RicardoCappelli: Leandro Almada, afastado da inteligência da PF, é o cara que desvendou o caso Marielle. Entendeu, né? Há uma guerra ab…Márcio Jerry · Político · Twitter/X · 2026-09-08Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo · Indignação 10.333 27.445
5 Decisão de Mendonça afasta também delegado que investigou morte de Marielle Franco https://t.co/dOrfgtVt7tBBC News Brasil · Mídia jornalística · Twitter/X · 2026-09-08Caso Marielle: investigação, julgamento e mandantes · Nao aplicavel 9.891 287.516
6 O quê exatamente MARIELLE FRANCO já fez pelo Inter para estar estampada no Beira-Rio em todos os jogos? https://t.co/h4zk8wLKxcSamuel Batista · Influenciador · Twitter/X · 2026-09-06Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Negativo · Desprezo 9.231 500.397
7 Um dos delegados afastado por André Mendonça é o mesmo que se recusou a participar da operação contra eleitores do Nordeste às vésperas do 2º turno de 2022. Leandro Almada também teve papel decisivo no caso Marielle. Conheça a trajetória do delegado 👇 https://t.co/kRKCVeIrEQCleber Lourenço · Influenciador · Twitter/X · 2026-09-09Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo 9.040 27.765
8 Marielle Franco uma mulher bissexual, que não abria mão de se reconhecer assim, mas até hj juram q era lésbica por ser casada com uma mulher ai vem os frustradinhos do twitter falar que a gente só assume relacionamento com pessoa do gênero oposto..,,…Manga · Usuário genérico · Twitter/X · 2026-09-03Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Negativo · Indignação · Desprezo 6.621 44.956
9 ⚖️ O Supremo Tribunal Federal determinou o início da cobrança de R$ 7 milhões em indenizações dos condenados pelos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Do total, R$ 3 milhões serão destinados à família de Marielle, outros R$ 3 milhões aos pareBastidores do Rio · Usuário genérico · Instagram · 2026-09-09Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Nao aplicavel 6.506 0
10 Até o delegado que solucionou o Caso Marielle Franco, descobrindo quem eram os mandantes do assassinato da vereadora, foi alvo de pedido de afastamento de André Mendonça. Leandro Almada também liderou as investigações que apontaram a corrupção de Claudio Castro, aliado de Flávio.Ricardo Pereira · Político · Twitter/X · 2026-09-08Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Negativo · Indignação 6.095 19.466
11 A decisão de André Mendonça de afastar dois diretores da Polícia Federal - justamente os responsáveis pelas investigações do Banco Master e do caso Marielle, é perigosíssina e faz da estratégia da extrema direita de voltar ao poder. Não há espaço para ingenuidade. A atitude do iFernanda Melchionna 5050 · Político · Instagram · 2026-09-10Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo · Indignação · Medo 5.609 0
12 @BolsonaroSP @MinAMendonca @FlavioBolsonaro O inferno começou a prevalecer no dia que seu pai conseguiu escapar de ser investigado pelo envolvimento na morte da Marielle Franco, com isso ele ficou livre pra forjar aquela facada, ser eleito presidente e matar 400 mil brasileiros nAndré Janones · Político · Twitter/X · 2026-09-09Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Negativo · Raiva · Desprezo 5.047 32.196
13 ESTADO E CRIME | Criada na favela da Maré e viúva de Marielle Franco, a vereadora Monica Benicio (PSOL) é uma das candidatas ao Senado pelo Rio nesta série de entrevistas do GLOBO com os postulantes à vaga. Ela criticou propostas que citam o modelo de El Salvador para as favelasJornal O Globo · Mídia jornalística · Instagram · 2026-09-06Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Neutro 4.762 0
14 Flávio Bolsonaro junto com os milicianos condenados e presos pelo assassinato de Marielle. https://t.co/ApFiCylKkzPedro · Influenciador · Twitter/X · 2026-09-16Caso Marielle: investigação, julgamento e mandantes · Negativo · Indignação 4.725 27.869
15 Monica Benicio está empatada em segundo lugar na disputa pelo Senado, ao lado de homens que apoiaram o golpe de 2016. Ela é lésbica, favelada, arquiteta, feminista e tem a força de quem carrega a memória de Marielle Franco. Benedita da Silva também está na disputa, firme e forteLuciana Boiteux 50180 🌻 · Político · Twitter/X · 2026-08-24Marielle Franco: nome, memória e mobilizações 4.486 27.096

As publicações que mais circularam com o nome de Marielle Franco não são, em sua maioria, sobre Marielle: são sobre a Polícia Federal de André Mendonça, e o nome da vereadora entra como prova do que se perde quando se mexe na máquina de investigação. É o que este gráfico mostra ao ordenar as publicações mais engajadas do recorte histórico — e o que ele aporta a um índice qualitativo de democracia é a evidência de que a memória de Marielle funciona hoje como parâmetro de aferição do arbítrio, não como pauta autônoma. As duas primeiras posições, de um político e de um influenciador, somam pouco mais de um quinto do engajamento total do recorte (11,2% e 10,8%), ambas em oposição à decisão que afastou diretores da PF e ambas ancoradas no mesmo argumento: o delegado Leandro Almada, responsável por desvendar o caso, foi atingido. A terceira e a quarta posições repetem o padrão — um político e a republicação de seu texto, com 8,7% cada —, de modo que quatro das cinco publicações mais engajadas giram em torno do mesmo episódio, com indignação e, em duas delas, medo. A quinta, de um veículo jornalístico, é a única do topo que trata o afastamento como notícia, e é também a de maior alcance entre as dez primeiras, o que sugere que a informação circulou mais longe do que a interpretação, ainda que tenha engajado menos.

O que o gráfico revela sobre a economia moral do nome é que ele é acionado sobretudo como vítima de uma estrutura que segue operando — o MAPAM, o Modelo de Análise de Papéis Actancial-Morais, que identifica os papéis de vítima, agressor, protetor, reparador, comunidade e estrutura atribuídos pelo autor a quem ele cita, aparece aqui com a vereadora no papel de vítima e a decisão sobre a PF no de agressor, sem que nenhum protetor se apresente. Fora desse eixo, a memória comparece em disputa: uma publicação questiona por que o nome está estampado no estádio do Internacional, outra discute a bissexualidade de Marielle contra quem a reduz a lésbica, e uma terceira, de um político, cobra que o pai do atual senador não escapou de ser investigado pela morte — todas em tom negativo e em oposição a algo. A reparação aparece uma única vez, e por via judicial: a cobrança de indenizações determinada pelo Supremo Tribunal Federal, em publicação de tom informativo. Para um índice de democracia, o dado é ambíguo e por isso valioso: o nome de Marielle é hoje um instrumento de medida da qualidade institucional — quem o cita, cita para denunciar o que se faz contra a investigação —, mas a conversa sobre justiça, memória e mobilização que o painel se propõe a acompanhar aparece subordinada a esse uso instrumental. A memória vira termômetro, não pauta: o nome mede a temperatura democrática do momento, e o que ele mede, nas publicações de maior circulação, é febre alta.

17 · O alcance de vídeo de quem fala do nome (visualizações)
17 · O alcance de vídeo de quem fala do nome (visualizações)

O alcance de vídeo em torno do nome de Marielle Franco concentra-se em poucos emissores, e essa concentração é o dado mais eloquente do gráfico: quem detém maior capacidade de distribuição não é quem tem mais legitimidade para falar da vereadora assassinada. A evidência está na própria hierarquia das visualizações. A Record lidera com 15,7% do total, seguida pelo G1 com 9,0%, por Marcelo Freixo com 8,8% e por Lázaro Rosa com 8,6%; depois vêm o Baú do Rio (6,0%), a Revista Oeste (4,8%) e a Record Cabo Verde (4,3%). Ou seja: os quatro primeiros respondem por pouco mais de dois quintos de todo o alcance, e a metade superior da lista — até o Pastor Henrique Vieira — já absorve a esmagadora maioria das visualizações, enquanto a cauda, de Blog do Noblat a BBC News Brasil, divide frações residuais. Vale dizer: a emissora de televisão e o portal de notícias de maior tráfego puxam a audiência, mas ao lado deles aparecem um ex-parlamentar e um perfil de rede social que, juntos, superam qualquer veículo isolado da grande imprensa — o que sugere que o nome de Marielle circula tanto pelo jornalismo quanto por uma militância de forte apelo audiovisual.

Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta uma advertência metodológica: alcance não é qualidade. Visualizações medem exposição, não o teor do que se diz; e o fato de a maior fatia pertencer a um veículo comercial de massa, e não ao Instituto Marielle Franco ou a Anielle Franco — que aparecem com 2,2% cada —, indica que a memória da vereadora é majoritariamente mediada por terceiros, não narrada por quem a reivindica. É nesse descompasso entre quem distribui e quem tem autoridade sobre a memória que reside o que este gráfico especificamente revela: a disputa pelo nome de Marielle se trava, antes de tudo, no terreno da audiência.

18 · Onde o assunto acontece: redes, portais e anúncios, e o tom de cada um
18 · Onde o assunto acontece: redes, portais e anúncios, e o tom de cada um
  • Negativo
  • Positivo
  • Neutro

Onde o nome de Marielle Franco circula, o tom predominante é o da denúncia: nas redes sociais, 74,3% do engajamento total do recorte se concentra em publicações de valência negativa, contra 21,9% de valência positiva e 3,8% de valência neutra — e esse é o dado que este gráfico entrega a um índice qualitativo de democracia, porque mostra que a memória da vereadora assassinada em 14 de março de 2018, junto com o motorista Anderson Gomes, não é evocada como celebração, mas como ferida aberta. A valência mede o sentimento geral do texto, e aqui ela diz que quase três em cada quatro interações mobilizadas pelo nome de Marielle carregam carga negativa: indignação, dor, revolta, o vocabulário de "justiça por Marielle" e "Marielle presente" que atravessa o caso, o julgamento dos mandantes, a violência política e o racismo que o crime expõe. A parcela positiva, pouco mais de um quinto do engajamento, corresponde ao registro do legado, do Instituto Marielle Franco, da Lei Marielle Franco, da homenagem que transforma ausência em bandeira; a neutra, residual, é o relato informativo que apenas situa o nome.

Para o índice, o que importa é a assimetria: um discurso em que o nome de uma vítima da violência política é majoritariamente acionado pelo polo do dano, e não pelo da reparação celebrada, sinaliza que a memória de Marielle funciona menos como símbolo de conquista democrática e mais como lembrete de uma dívida não quitada — o que, num índice de qualidade democrática, pesa como indicador de que a sociedade ainda processa o caso pelo registro da injustiça, não pelo da justiça feita.

19 · Os veículos de imprensa citados junto ao nome, e o tom de cada citação
19 · Os veículos de imprensa citados junto ao nome, e o tom de cada citação
  • Negativo
  • Positivo

Este gráfico mede uma coisa muito específica: quando o nome de Marielle Franco aparece acompanhado da citação de um veículo de imprensa, qual é o tom dessa citação — e o que ele revela é que a imprensa, nesse debate, não é citada como fonte neutra, mas como peça de acusação. A valência é o sentimento geral do texto, e aqui ela se distribui de forma quase unânime: entre os veículos citados, a quase totalidade das citações é negativa, e as poucas positivas se concentram em órgãos de imprensa alternativa ou regional. GloboNews e Metrópoles DF aparecem cada um com a totalidade de suas citações no campo negativo, respondendo, cada um, por pouco mais de um quarto de todas as citações negativas do gráfico; O Assunto e Estadão vêm logo atrás, com cerca de um oitavo cada. Do outro lado, Mídia Ninja tem metade de suas citações no campo positivo, e o Diário do Rio se divide exatamente ao meio entre positivo e negativo — o único veículo do gráfico que não é citado de forma monolítica.

O que isso aporta a um índice qualitativo de democracia é a evidência de que a imprensa, quando entra na conversa sobre Marielle, entra como objeto de disputa, não como árbitro. A distribuição do tom sugere que a citação de veículos funciona como marcador de campo: os grandes veículos são convocados sobretudo para sustentar acusações — de ameaça à democracia, de corrupção moral, de violência de gênero —, enquanto os veículos alternativos e regionais carregam a citação positiva, ligada à memória e à mobilização. Num índice que mede a qualidade do discurso democrático, esse padrão indica que a imprensa não está sendo tratada como bem comum informativo, mas como recurso retórico de um lado contra o outro — e que a confiança institucional, nesse recorte, se distribui de forma seletiva, não generalizada.

20 · As emoções de cada tipo de ator que publica sobre Marielle
20 · As emoções de cada tipo de ator que publica sobre Marielle
  • Indignação
  • Orgulho
  • Esperança
  • Desprezo
  • Surpresa
  • Raiva
  • Medo
  • Alegria
  • Demais categorias

A indignação é a emoção que organiza o discurso sobre Marielle Franco, e ela vem sobretudo de quem tem mandato: entre os políticos que publicam sobre o nome, a indignação responde por 38,2% do engajamento que o tipo recebe, e entre os influenciadores por 43,0% — os dois maiores blocos do gráfico, somando 20,6% e 13,6% do total. O que este retrato agregado, que cobre todo o histórico e não descreve mês algum, revela é uma economia afetiva dividida: de um lado, a indignação como emoção de entrada, puxada por políticos e influenciadores; de outro, um repertório de memória e luto que quase só os políticos carregam — a esperança representa 15,1% do engajamento dos políticos e 75,4% de tudo o que a emoção mobiliza no gráfico, o orgulho 11,3% e 56,2%, a tristeza 2,3% e 86,1%, o medo 12,1% e 99,7%. Ou por outra: quando o assunto é o legado, o instituto, a homenagem, o "Marielle presente", quem sustenta o tom é o mandato; os influenciadores ficam na chave do desprezo (21,8% do que recebem, 51,4% de tudo que a emoção move) e da surpresa (15,3%), e os usuários comuns, que respondem por 36,1% do desprezo e 22,9% da indignação dentro do próprio tipo, entram quase só pela via da revolta difusa — a indignação deles é 6,3% de tudo o que a emoção mobiliza, contra 55,5% da dos políticos.

Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico diz menos sobre o que se sente e mais sobre quem pode falar em nome da memória: a distribuição desigual das emoções entre os tipos de ator sugere que o nome de Marielle funciona como repertório de luto e de esperança nas mãos de quem tem mandato e de instituições, e como repertório de revolta e desprezo nas mãos de quem não tem — o que, lido pela Teoria das Fundações Morais, que mede as fundações morais acionadas no texto e seus polos, aponta para o cuidado e a lealdade no polo virtuoso quando o político fala, e para a violação da igualdade e da liberdade quando o influenciador e o usuário reagem. É um retrato de composição, não de volume: o que ele aporta ao índice é a evidência de que a qualidade democrática do discurso sobre Marielle depende de quem o enuncia, e que a passagem da indignação à esperança — de um tipo de ator a outro — é o próprio termômetro da disputa entre justiça e memória.

21 · O perfil moral completo do debate sobre Marielle: as sete fundações, com polaridade (MFT)
21 · O perfil moral completo do debate sobre Marielle: as sete fundações, com polaridade (MFT)

O perfil moral que o nome de Marielle Franco mobiliza é, antes de tudo, um perfil de violação: em todo o histórico agregado, as fundações morais da Teoria das Fundações Morais (MFT), que mede quais fundações morais o texto aciona e em que polo — virtuoso ou de violação —, aparecem predominantemente no polo negativo, e a leitura de um índice qualitativo de democracia começa por aí. O dano responde por 73,1% do que a fundação do cuidado aciona, a trapaça por 90,6% da proporcionalidade, a subversão por 87,4% da autoridade e a degradação por 99,9% da pureza — esta última praticamente unívoca, o que diz muito sobre o registro em que o assassinato é elaborado. A traição, com 54,1% da lealdade, e a opressão, com 41,1% da liberdade, completam o quadro: o nome de Marielle é evocado sobretudo como memória de um dano infligido, não como celebração de um vínculo. Há, contudo, uma assimetria que interessa diretamente ao índice: a igualdade é a única fundação em que o polo virtuoso supera o de violação, com 74,2% contra 25,8%, e a lealdade virtuosa alcança 42,7% — quase metade do que a fundação mobiliza. Ou seja, o discurso não é só luto e denúncia; é também afirmação de pertencimento e de igualdade como valor positivo, o que sustenta a hipótese de que a memória de Marielle funciona como repertório de mobilização, e não apenas como ferida aberta. Para um índice de democracia, o dado é ambíguo e por isso valioso: a predominância do polo negativo mede a permanência da injustiça na fala pública, enquanto a força relativa da igualdade e da lealdade virtuosas mede a capacidade de o nome converter violação em projeto — e é essa conversão, mais do que o volume de menções, que qualifica o debate.

22 · O cuidado ferido por tipo de ator: quem aciona o dano e quem aciona a proteção
22 · O cuidado ferido por tipo de ator: quem aciona o dano e quem aciona a proteção
  • Dano
  • Cuidado
  • Cuidado e Dano

O cuidado ferido é a gramática moral do nome de Marielle, e quem o aciona com mais força não é a imprensa nem o movimento social: são os políticos e os influenciadores. Neste cruzamento entre o tipo de ator que publica e a fundação moral do cuidado, medida pela Teoria das Fundações Morais (MFT), que identifica em cada texto o acionamento do polo virtuoso do cuidado ou do polo de violação, o dano, o quadro é nítido. Entre os políticos, o cuidado aparece em 49,2% do engajamento que produzem e o dano em 50,8% — praticamente uma divisão ao meio, com o dano respondendo por 34,3% de todo o engajamento do polo da violação no recorte. Entre os influenciadores, a assimetria é ainda mais dura: o dano responde por 83,4% do que publicam, contra 16,6% do cuidado, e sozinho concentra 31,5% do engajamento total do polo da violação. A mídia jornalística é quase monotemática no polo do dano, com 99,8% de sua produção nesse registro, e o mesmo vale para empresas e jornalistas individuais, ambos em 100%. O que este gráfico revela, portanto, é que o nome de Marielle mobiliza sobretudo a denúncia da violação — o assassinato, a impunidade, a violência que se repete — e que essa denúncia é conduzida por uma coalizão discursiva ampla, de políticos a influenciadores, passando pela imprensa, enquanto o polo virtuoso do cuidado, a proteção, o amparo, aparece de forma residual e quase sempre pela boca de políticos e de movimentos sociais.

Para um índice qualitativo de democracia, o dado é eloquente: a conversa pública em torno de Marielle é uma conversa sobre o dano sofrido, não sobre a proteção devida, e essa ênfase no polo da violação, sustentada por atores tão distintos, sugere que o nome funciona menos como símbolo de uma agenda de cuidado e mais como prova de uma falha — a falha do Estado em proteger quem deveria proteger. É o que a leitura moral do debate tem de mais valioso: não mede se o nome é lembrado, mede o que a lembrança aciona, e o que ela aciona, com esmagadora preponderância, é a ferida.

23 · A fundação da igualdade no debate sobre Marielle, por posicionamento
23 · A fundação da igualdade no debate sobre Marielle, por posicionamento
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  • Oposição
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A igualdade, na acepção da Teoria das Fundações Morais, que mede as fundações morais acionadas no discurso, aparece de forma quase unânime nos textos de apoio ao nome de Marielle Franco e majoritária também entre os de oposição, o que indica que o campo que se opõe a essa memória não a ataca negando a igualdade, mas disputando o seu sentido. No agregado de todo o histórico, o polo virtuoso da igualdade responde por 83,8% do engajamento total do recorte, contra 16,2% do polo da desigualdade; e é no apoio que a fundação se apresenta mais homogênea, com 99,1% do engajamento daquele posicionamento no polo virtuoso, enquanto na oposição a proporção cai para 69,6%, com 30,4% do engajamento do segmento no polo da desigualdade. O dado que interessa a um índice qualitativo de democracia é justamente essa assimetria: a oposição é o único campo em que a fundação aparece dividida, e é ali que a violação da igualdade ganha tração discursiva.

Vale dizer o que o gráfico não mostra: a fundação não é monopólio de nenhum dos lados, e o apoio concentra 60,9% do engajamento total do recorte no polo virtuoso, contra 11,7% da oposição nesse mesmo polo e 26,8% da oposição no polo da desigualdade. Ou por outra: a igualdade é o terreno comum em que a disputa sobre Marielle se trava, e quem se opõe à memória o faz majoritariamente dentro do vocabulário da própria igualdade, não contra ele. Para o índice, isso sugere que o nome de Marielle funciona menos como marcador de clivagem moral e mais como referência que obriga mesmo os adversários a falar a sua língua — um indicador de robustez democrática do discurso, ainda que a presença de 30,4% do engajamento oposicionista no polo da desigualdade mostre que a disputa pelo significado da fundação permanece aberta.

24 · Liberdade e opressão: o polo acionado, por tipo de ator
24 · Liberdade e opressão: o polo acionado, por tipo de ator
  • Liberdade
  • Opressão
  • Liberdade e Opressão

A liberdade, e não a opressão, é o polo moral que sustenta o discurso sobre Marielle Franco, e são os políticos que o carregam com folga: entre o engajamento que cada tipo de ator mobiliza ao acionar a fundação moral da liberdade e da opressão — uma das sete fundações morais da Teoria das Fundações Morais, que mede se o texto evoca o polo virtuoso da liberdade ou o vício da opressão —, os políticos respondem por 45,9% do total no polo positivo e por 28,7% no negativo, somando 74,6% de toda a exposição do recorte. Dentro da própria barra dos políticos, 60,7% do engajamento vai para o polo virtuoso e 38,0% para o de violação; entre os influenciadores a proporção se inverte com nitidez, com 57,5% no polo da opressão contra 41,8% no da liberdade, o que sugere que a denúncia da violação, e não a celebração do legado, é o que move a audiência de quem não tem mandato. As empresas aparecem exclusivamente no polo virtuoso, e a mídia jornalística comparece apenas de forma neutra, sem acionar com força nenhuma das duas pontas.

Para um índice qualitativo de democracia, o dado é preciso: o nome de Marielle é evocado sobretudo como afirmação de um valor — a liberdade —, e essa evocação é obra de atores institucionais, o que indica que a memória da vereadora funciona no debate público como repertório positivo de defesa democrática, não como acusação difusa. A concentração da exposição nos políticos, contudo, revela que a disputa sobre o significado da liberdade e da opressão no caso Marielle é conduzida por quem tem palanque, e que os influenciadores, quando entram, entram pelo lado da violação — o que sugere que a energia da denúncia circula fora do campo institucional, enquanto a formulação afirmativa do valor permanece dentro dele.

25 · Os valores de Schwartz de quem fala de Marielle, por posicionamento
25 · Os valores de Schwartz de quem fala de Marielle, por posicionamento
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  • Oposição
  • Neutro informativo

A conversa sobre Marielle Franco é, no que toca às orientações de valor de quem a evoca, uma conversa quase inteiramente de autotranscendência — a orientação de valor que, na tipologia de Schwartz, organiza o discurso em torno do cuidado com o outro, da igualdade e da justiça além do interesse próprio —, e essa marca é ainda mais forte entre os que se põem em apoio ao nome do que entre os que se põem em oposição: entre os textos de apoio, a autotranscendência responde por 71,6% do engajamento do próprio segmento e por 55,5% do total do gráfico, ao passo que, entre os de oposição, ela cai para 99,9% do segmento de oposição — isto é, praticamente todo o engajamento oposicionista que aciona alguma orientação de valor o faz pela via da autotranscendência, ainda que esse segmento represente apenas 22,5% do total. O contraste que interessa a um índice qualitativo de democracia está no resto: a abertura à mudança — a orientação que valoriza autonomia, novidade e independência de julgamento — aparece em 23,9% do engajamento de apoio e em 18,5% do total, mas é residual na oposição, com 0,1% do segmento; e a conservação — a orientação que valoriza tradição, segurança e ordem — surge em 4,5% do engajamento de apoio e em 3,5% do total, sem qualquer expressão mensurável na oposição. Em outras palavras, o campo que se opõe a Marielle não constrói seu discurso pela gramática da tradição ou da ordem: quando fala dela, fala pela mesma linguagem do cuidado e da justiça social que o campo de apoio, o que sugere que a disputa em torno de seu nome não se trava entre visões de mundo declaradamente distintas, mas dentro de um vocabulário moral compartilhado — e é justamente essa convergência, e não a divergência, que este gráfico entrega ao índice.

26 · Os valores republicanos que o nome de Marielle mobiliza
26 · Os valores republicanos que o nome de Marielle mobiliza

A memória pública de Marielle Franco é mobilizada, sobretudo, como exigência de prestação de contas: a prestação de contas responde por 56,7% do engajamento total do recorte, mais que a soma de todas as demais categorias de valores republicanos — a dimensão que mede os princípios da coisa pública acionados no discurso. É um retrato de um nome convertido em instrumento de cobrança: o que se pede, ao evocá-lo, é resposta, responsabilização, esclarecimento do crime e das suas circunstâncias. Vêm depois, em proporção bem menor, a separação entre o público e o privado (13,0%), a participação cívica (12,6%) e o bem comum (10,1%) — três valores que descrevem uma leitura complementar: a de que o assassinato de uma vereadora eleita toca a fronteira entre o interesse coletivo e as conveniências privadas, convoca engajamento e remete ao que é de todos. A defesa da lei impessoal (4,1%) e o combate ao patrimonialismo (2,9%) aparecem com peso reduzido, e a transparência é quase residual (0,6%). Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico diz algo preciso: quando o nome de Marielle entra no debate, ele ativa preferencialmente a gramática da responsabilização — o valor mais diretamente ligado à cobrança de instituições e de agentes públicos —, enquanto os valores da impessoalidade da lei, do combate à captura privada do Estado e da transparência, que seriam os mais diretamente associados à integridade democrática, ficam em segundo plano. O nome funciona, portanto, menos como símbolo de um programa de reforma institucional e mais como um chamado persistente a que se responda por um crime — e é essa a contribuição que este gráfico oferece ao índice: mede a força da exigência de resposta como valor republicano dominante na memória de Marielle, e a fraqueza relativa dos valores que qualificariam essa resposta como reforma das instituições.

27 · O quadrante cultural de Kahan no debate sobre Marielle, por tipo de ator
27 · O quadrante cultural de Kahan no debate sobre Marielle, por tipo de ator
  • Político
  • Influenciador
  • Empresa
  • Usuário genérico
  • Movimento social
  • Jornalista (perfil individual)
  • Mídia jornalística
  • ONG / terceiro setor
  • Demais categorias

A leitura cultural do nome de Marielle é quase toda igualitária-comunitarista, e o gráfico mede exatamente isso: o quadrante cultural de Kahan, que classifica a visão de mundo de um texto em dois eixos, hierarquia contra igualdade e individualismo contra comunitarismo, e que aqui aparece como valor único por publicação, de modo que cada texto cai em um só quadrante. Entre os que publicam sobre Marielle e recebem classificação, o igualitarismo comunitarista é a visão de mundo praticamente exclusiva: responde por 55,1% do engajamento na base igualitário-comunitarista e por 23,9% na base dos influenciadores, enquanto o hierárquico comunitarista, que enquadraria o caso como ameaça à ordem e à coesão da comunidade, fica com 50,7% de uma base política e 49,3% de uma base de influenciadores, e o hierárquico individualista e o igualitário individualista quase não aparecem. O que o gráfico revela, portanto, não é uma disputa entre visões de mundo, mas uma convergência: o nome de Marielle é falado, sobretudo, na chave da igualdade e do pertencimento coletivo, e quem o aciona o faz para afirmar que o dano foi contra uma comunidade e contra a igualdade, não para restaurar hierarquia ou exaltar o indivíduo.

A distribuição por tipo de ator mostra quem sustenta essa leitura e quem apenas a acompanha. Os influenciadores concentram 35,1% do engajamento total do recorte e 42,6% do engajamento na base igualitário-comunitarista, com 88,6% do seu próprio engajamento nesse quadrante; os políticos vêm em seguida, com 29,1% do total e 35,3% na base igualitário-comunitarista, mas apenas 75,3% do seu engajamento nesse quadrante, o que indica que o campo político é o único com presença relevante fora dele, ainda que minoritária. A mídia jornalística, com 8,2% do total, é quase integralmente igualitário-comunitarista, e os movimentos sociais, as organizações do terceiro setor e as empresas aparecem com 100% do seu engajamento nesse mesmo quadrante, o que sugere que, quando esses atores entram na conversa, entram pela mesma gramática. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é ambíguo e vale registrar a ambiguidade: de um lado, a ausência de disputa cultural em torno do nome indica que o consenso sobre o significado do assassinato se consolidou como memória de injustiça igualitária, o que fortalece a dimensão de direitos; de outro, a quase inexistência de vozes que enquadrem o caso pela hierarquia ou pelo individualismo pode significar que o debate sobre Marielle já não é um debate, e sim um consenso, e consensos amplos são menos informativos sobre a saúde democrática de um espaço público do que dissensos explícitos, já que medem a adesão, não a controvérsia. O gráfico, assim, aporta ao índice um componente de coesão discursiva: ele mostra que o nome de Marielle funciona hoje como um ponto de convergência moral no campo igualitário-comunitarista, e que a pergunta relevante para a democracia deixa de ser se há disputa sobre o significado do caso e passa a ser quem, fora desse campo, evita pronunciá-lo.

28 · De que o caso é apontado como causa: causalidades atribuídas, por posicionamento
28 · De que o caso é apontado como causa: causalidades atribuídas, por posicionamento
  • Oposição
  • Apoio
  • Neutro informativo

O diagnóstico causal sobre o caso Marielle é quase todo de oposição, e a oposição o concentra na causa direta: entre o engajamento de quem se opõe, a atribuição de causa direta responde por 86,6%, a sistêmica por 7,4%, a moral por 3,6% e a conspiratória por 2,4%. Causalidade, aqui, é a quem o texto atribui a origem do problema; causa direta aponta autoria e execução identificáveis, causa sistêmica aponta o arranjo que produz e reproduz a violência, causa moral aponta corrupção de caráter ou de valores, e causa conspiratória aponta articulação oculta. O que o gráfico mostra, portanto, é uma economia discursiva em que a indignação se resolve na peça que se pode nomear — o mandante, o executor, o intermediário — e não na engrenagem que a tornou possível. É a gramática do crime, não a da estrutura.

O contraste com o campo de apoio é o dado mais eloquente: entre o engajamento de quem apoia, a causa direta responde por 96,9% e a sistêmica por apenas 3,1%, ou seja, os dois lados convergem no essencial e divergem no resto — a oposição é a única que mobiliza causa moral e causa conspiratória, ainda que em fatias marginais, e o relato neutro é integralmente de causa direta. Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico entrega um achado preciso: a disputa sobre o caso Marielle não é uma disputa sobre o que causou a morte, mas sobre quem a causou, e essa convergência na causalidade direta reduz o espaço de contestação do diagnóstico — o que é, em si, um indicador de robustez democrática do debate, ainda que à custa da leitura estrutural que o próprio caso suscita.

29 · Que enquadramento carrega que afeto: enquadramentos × emoções

IndignaçãoDesprezoEsperançaOrgulhoRaiva
Corrupção moral231125548
Violência de gênero9134293118
Direitos e liberdades211391313
Feminicídio5424121312
Desigualdade estrutural211101863
Ameaça à democracia105277321
Guerra cultural5872161627
Defesa da ordem4282410
Conflito povo vs. elite4927181210
Justiça territorial632351
Racismo19212125
Prova material / entrega1418
SurpresaTristezaAlegriaMedoNojo
Corrupção moral386242
Violência de gênero432462
Direitos e liberdades17101
Feminicídio411331
Desigualdade estrutural145
Ameaça à democracia13312
Guerra cultural213
Defesa da ordem10211
Conflito povo vs. elite10421
Justiça territorial221
Racismo1511
Prova material / entrega1

A gramática afetiva que cerca o nome de Marielle Franco é a da corrupção moral indignada, e não a da violência de gênero ou do luto: no conjunto de todo o histórico, o par entre o enquadramento de corrupção moral e a emoção de indignação é o mais engajado de todos, seguido, no mesmo enquadramento, pelo desprezo, o que revela que o nome circula sobretudo como acusação moral contra quem teria traído a causa, e não como memória enlutada. Enquadramento, aqui, é o modo como o texto organiza o assunto, e emoção é o afeto que ele expressa; lidos juntos, mostram que a corrupção moral — a leitura de que houve degradação de conduta e traição a um compromisso público — concentra as duas maiores fatias de engajamento, com a indignação à frente e o desprezo logo atrás, enquanto a ameaça à democracia vem em terceiro na escala afetiva, também puxada pela indignação, e só depois aparecem direitos e liberdades, com esperança e orgulho, e violência de gênero, com indignação e desprezo. O contraste é o achado: o polo do luto e da celebração — direitos e liberdades com esperança e orgulho, desigualdade estrutural com esperança e orgulho, justiça territorial com orgulho — existe e é robusto, mas fica atrás do eixo acusatório, e a violência de gênero e o feminicídio, embora presentes com indignação, desprezo, tristeza e raiva, não lideram o engajamento que o nome mobiliza. Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico aporta uma advertência metodológica: a qualidade do discurso em que Marielle aparece não se mede pela densidade do luto, e sim pela predominância da indignação moralizante, o que sugere que o nome funciona menos como símbolo de uma vítima a ser reparada e mais como arma retórica numa disputa sobre quem degradou o que ela representava — e é essa conversão do afeto em acusação que o índice precisa capturar.

30 · Quem é citado junto ao nome de Marielle, e com que tom
30 · Quem é citado junto ao nome de Marielle, e com que tom
  • Negativo
  • Positivo
  • Neutro

O clima discursivo em torno do nome de Marielle Franco é majoritariamente de acusação, e não de homenagem: nos textos que citam a vereadora, a valência negativa responde por 74,3% do engajamento, contra 21,9% de positiva e 3,8% de neutra. O dado é decisivo para um índice qualitativo de democracia porque separa duas coisas que o senso comum confunde — a força simbólica de Marielle e a temperatura do debate que o nome dela provoca. O nome funciona menos como objeto de memória e mais como gatilho de imputação: ao lado dele, o que circula com maior exposição não é o legado, é a culpa. André Mendonça aparece em 100% dos textos que o citam com valência negativa e concentra 10,8% do engajamento total do recorte; Leandro Almada, também integralmente negativo, responde por 7,0%; Cláudio Castro, 92,2% negativo, por 5,9%; Jair Bolsonaro, 90,2% negativo, por 4,6%. Ronnie Lessa, Edson Fachin e Chiquinho Brazão completam, todos com valência negativa praticamente unânime. A geografia do descrédito é nítida: o que se cola ao nome de Marielle é o aparato do crime e da suspeita de acobertamento — os executores confessos, os mandantes apontados, as autoridades que teriam falhado ou protegido. Quando a valência é positiva, o padrão se inverte e o campo muda: Mônica Benício, viúva de Marielle, aparece com 60,5% dos textos em tom positivo e 39,5% em neutro, sem qualquer registro negativo; Anielle Franco, 79,0% positiva; Lula, 99,9% positiva; Flávio Dino, 52,7% positiva contra 47,3% negativa, o único nome verdadeiramente dividido. Há, portanto, duas constelações distintas orbitando o mesmo nome: uma de acusação, formada por suspeitos e instituições sob suspeita, e outra de solidariedade, formada pela família e por aliados políticos. O gráfico mede o tratamento que os autores dão a quem citam ao lado de Marielle — não o que essas pessoas dizem —, e o que ele revela é que o nome da vereadora opera hoje como marcador de julgamento moral: quem se aproxima dele pela via institucional ou pela via do crime recebe valência negativa; quem se aproxima pela via afetiva e familiar recebe valência positiva. Para o índice, isso importa porque a qualidade democrática do discurso sobre Marielle não se mede pela quantidade de menções, mas pela direção do olhar: um debate em que 74,3% do engajamento é negativo em torno de um caso de execução política indica que a sociedade ainda processa o assassinato como ferida aberta, e não como memória pacificada — o que é, em si, um dado sobre a estado da democracia brasileira. A concentração da valência negativa sobre agentes do Estado — Mendonça, Fachin, Castro, Bolsonaro — sugere que a disputa em torno do nome de Marielle se deslocou do luto para a cobrança: o que se cobra, ao citá-la, é responsabilidade institucional, e o que se denuncia é a demora ou a conveniência da Justiça. É um debate que fala de impunidade mais do que de homenagem, e que trata o nome da vereadora como prova de uma falha — não como símbolo de uma causa.

31 · As emoções que cada pessoa citada mobiliza
31 · As emoções que cada pessoa citada mobiliza
  • Indignação
  • Esperança
  • Orgulho
  • Desprezo
  • Surpresa
  • Medo
  • Raiva
  • Demais categorias

Este gráfico mede o repertório afetivo que os textos associam a cada pessoa citada — a emoção que o autor atribui ao nome, não o sentimento da pessoa —, e o que ele revela é que o nome de Marielle Franco é o único do recorte capaz de mobilizar, ao mesmo tempo, a indignação e a esperança. A indignação responde por 36,3% do engajamento associado a Marielle e por 16,7% do total do gráfico, o maior valor entre todas as combinações; mas, ao lado dela, a esperança (11,6% na base Marielle) e o orgulho (10,7%) aparecem com peso que nenhum outro citado repete — e é essa coexistência que distingue o nome. Nos demais, o afeto é quase unívoco: André Mendonça concentra 61,9% do engajamento na indignação, Cláudio Castro 62%, Leandro Almada 65,4%, Edson Fachin 49,9%, Jair Bolsonaro 48,7% — todos nomes que o debate trata como objeto de uma única emoção, a repulsa. O contraste é o achado: Marielle é citada com desprezo (15,3% da base), medo (7,5%), surpresa (6,4%), raiva (6,4%), tristeza (1,5%) e até nojo, mas também com esperança e orgulho, o que a constitui como figura ambivalente no discurso — simultaneamente vítima a ser reparada e símbolo a ser celebrado. Para um índice qualitativo de democracia, isso importa: a qualidade do discurso em que o nome aparece não é a de um alvo de repulsa unânime, mas a de um nome em disputa afetiva, e a presença de esperança e orgulho ao lado da indignação sugere que a memória de Marielle opera como recurso de mobilização, não apenas como denúncia. Os nomes ligados à justiça do caso — Ronnie Lessa, Anderson Torres, Domingos Brazão, Chiquinho Brazão — aparecem quase exclusivamente pela indignação, enquanto Mônica Benício concentra orgulho e esperança em proporções equivalentes (50% e 49,9% da base), o que a posiciona, no discurso, como figura de continuidade e não de luto. O gráfico, portanto, não mede o que se diz de Marielle, mas o que se sente ao dizê-lo — e o que se sente é, majoritariamente, indignação com um contraponto de esperança que nenhum outro nome do recorte sustenta.

32 · As instituições citadas no caso e o papel que recebem (vítima, agressora, protetora)
32 · As instituições citadas no caso e o papel que recebem (vítima, agressora, protetora)
  • Vítima
  • Agressor
  • Protetor
  • Reparador
  • Estrutura
  • Demais categorias

O gráfico mostra que o caso Marielle produz um roteiro moral em que a Polícia Federal é a instituição mais citada e, ao mesmo tempo, a que recebe os papéis mais contraditórios: entre as publicações que a mencionam, 47,1% lhe atribuem o papel de agressora e 45,6% o de vítima, com 18,7% e 17,5% do engajamento total do recorte respectivamente — ou seja, a mesma corporação que investiga o crime é tratada, quase na mesma proporção, como quem causa o dano e como quem o sofre. O Supremo Tribunal Federal repete o padrão em escala menor, com 47,5% de vítima e 32,3% de agressora entre suas menções, mas é o único ator a concentrar o papel de reparador de forma expressiva: 88,3% de todas as atribuições de reparação do gráfico recaem sobre o STF, ainda que isso represente apenas 17,2% das citações à corte. O Senado Federal aparece dividido entre vítima (39,5%) e agressora (37,3%), com 22,4% de protetor; o Congresso Nacional, entre vítima (32,9%), agressora (33,0%) e estrutura (32,7%) — este último, o papel que o MAPAM, o Modelo de Análise de Papéis Actancial-Morais, reserva àquilo que reproduz o dano sem ser pessoa, e que no caso do Congresso responde por 42,5% das atribuições de estrutura do gráfico. A ALERJ, casa onde Marielle atuou, é citada em partes iguais como agressora e vítima (50,0% cada), e o Instituto Marielle Franco aparece exclusivamente como vítima (100,0% de suas menções), o que sugere que a própria memória institucionalizada do nome é enquadrada como alvo, não como sujeito de ação.

Para um índice qualitativo de democracia, o dado é revelador: o debate sobre Marielle não distribui confiança institucional de forma estável — ele atribui às instituições papéis morais antagônicos na mesma frase, o que indica que a disputa não é sobre o que cada órgão fez, mas sobre quem ocupa o lugar de vítima e quem ocupa o de algoz. A Polícia Federal, o Supremo e o Senado são simultaneamente acusados e vitimizados, e a única instituição que recebe o papel de reparadora de forma quase unânime é o STF, o que sugere que a expectativa de justiça no caso se concentra no Judiciário, não no Legislativo — cuja atuação é lida sobretudo como estrutura que reproduz o dano. O gráfico, portanto, mede menos a confiança nas instituições do que a moralização do conflito institucional em torno do nome de Marielle.

33 · As instituições citadas no caso e o tom de cada citação
33 · As instituições citadas no caso e o tom de cada citação
  • Negativo
  • Positivo
  • Neutro

A Polícia Federal concentra o maior volume de engajamento entre as instituições citadas no debate sobre Marielle Franco, e o faz sob tom quase integralmente negativo: 95,5% do engajamento associado a ela vem de textos de valência negativa, o que responde por 34,3% de todo o engajamento do recorte e por 51,7% do engajamento negativo. O dado é revelador porque a Polícia Federal é, no caso Marielle, a instituição que investiga os mandantes — e o debate a trata, majoritariamente, como alvo de desconfiança, não como garantidora de justiça. O PSOL-REDE aparece em segundo lugar no engajamento total (11,4%), mas com sinal invertido: 100% do engajamento ligado ao partido é positivo, o que sugere que, no discurso em que o nome de Marielle circula, o partido funciona como âncora de memória e legitimidade, enquanto a instituição policial funciona como foco de cobrança e suspeição. O Supremo Tribunal Federal, citado em 10,2% do engajamento total, tem 93,6% de sua base em tom negativo — o que indica que o tribunal, no imaginário desse debate, é tratado menos como instância de reparação e mais como parte do problema ou como instância que falha em resolvê-lo. O Senado Federal, por sua vez, é a instituição com perfil mais dividido: 42,9% do engajamento em tom positivo, 41,6% em neutro e 15,5% em negativo, o que sugere que, quando o Senado entra na conversa sobre Marielle, ele o faz menos como protagonista do caso e mais como arena de disputa política e legislativa — provavelmente em torno da Lei Marielle Franco ou de pautas de direitos humanos.

Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico é particularmente sensível: ele mostra que a confiança institucional no debate sobre Marielle está concentrada em poucos atores e com sinal predominantemente negativo em relação às instituições de justiça e segurança. A Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal, que deveriam ser os polos de reparação e de garantia de direitos, aparecem como objetos de desconfiança e de cobrança — o que, em termos de qualidade democrática, indica que o debate público sobre o caso Marielle não está apenas cobrando justiça, mas expressando uma descrença estrutural na capacidade das instituições de entregá-la. O PSOL-REDE, com 100% de tom positivo, funciona como contraponto: é a instituição que, no discurso, encarna a memória e a continuidade da luta de Marielle, e não a que falha. O gráfico, portanto, não mede apenas quem é citado, mas como o próprio sistema de justiça é percebido no debate — e a percepção dominante é de que ele ainda não reparou o dano.

34 · A conversa de JUSTIÇA (julgamento, mandantes, tribunais): os enquadramentos em disputa
34 · A conversa de JUSTIÇA (julgamento, mandantes, tribunais): os enquadramentos em disputa
  • Oposição
  • Neutro informativo
  • Apoio

A conversa de justiça em torno do nome de Marielle Franco é, neste recorte, uma conversa de oposição: os enquadramentos específicos — as grades de leitura temática que o texto aplica ao caso, como corrupção moral, ameaça à democracia ou feminicídio — aparecem majoritariamente sob posicionamento contrário, e é a oposição que dá a esse campo o seu vocabulário e a sua gramática. O gráfico cruza os enquadramentos específicos com o posicionamento geral (contra, neutro/relato, a favor) e mede a exposição de cada combinação pelo engajamento, em composição por barra; nele, ameaça à democracia e corrupção moral, ambos em oposição, respondem por 28,8% e 24,4% do total do recorte, e por 34,2% e 28,9% do que se publica sob posicionamento contrário — ou seja, mais de três quintos da exposição oposicionista se organiza em torno da ideia de que o caso atenta contra a democracia e de que há uma degradação moral em jogo. Incompetência estatal, também em oposição, soma 9,2% do total, e conflito povo versus elite, na mesma chave, 4,4%; do lado do apoio, os enquadramentos são residuais e dispersos — defesa da ordem responde por 1,2% do total e por 39,8% do que se publica a favor, crise concreta por 0,8% do total e 26,7% do segmento, e conflito povo versus elite reaparece aí com 27,8% do apoio, sinal de que a base governista ou pró-caso não construiu um repertório próprio para falar de justiça e recicla o vocabulário do adversário.

O achado mais fino está no relato neutro, que não é neutro em conteúdo: feminicídio e violência de gênero concentram-se no posicionamento informativo — 50,5% e 44,2% do respectivo segmento, e 6,3% e 5,5% do total —, o que indica que o enquadramento de gênero, quando aparece, vem pela via da descrição jornalística e não pela via do posicionamento explícito; a oposição, por sua vez, também aciona violência de gênero (5,1% do seu segmento) e feminicídio (3,6%), mas em proporção bem menor do que a que dedica à ameaça à democracia e à corrupção moral. Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico entrega uma medida de assimetria discursiva: o campo que se opõe ao caso monopoliza os enquadramentos de maior carga normativa e de maior exposição, enquanto o campo que o apoia não oferece contra-enquadramento à altura, e a dimensão de gênero — que deveria ser o núcleo do caso — chega ao público sobretudo pela narrativa informativa, não pela disputa política declarada. Vale dizer: quem transforma o assassinato de Marielle em matéria de gênero é o relato, não o posicionamento; quem o transforma em matéria de regime é a oposição. Essa dissociação é o dado que interessa ao índice, porque revela que a violência de gênero, no discurso em que o nome de Marielle aparece associado a julgamento, mandantes e tribunais, funciona menos como bandeira de um campo do que como informação de contexto — e um índice que queira medir a qualidade democrática do debate precisa registrar que a pauta de gênero, aqui, não é apropriada por nenhum dos lados como arma retórica.

35 · A conversa de JUSTIÇA: quem a ocupa e com que tom
35 · A conversa de JUSTIÇA: quem a ocupa e com que tom
  • Negativo
  • Positivo
  • Neutro

A conversa de justiça em torno do nome de Marielle Franco é, no tom, uma conversa de indignação — e é a política, não a imprensa, quem a conduz. O gráfico cruza quem publica (tipo de ator autor) com a valência do texto, medindo a exposição pelo engajamento total, ou seja, curtidas, comentários e compartilhamentos somados, que indicam o quanto cada fala circulou; e o que ele mostra é uma assimetria quase absoluta: entre os políticos, 97,1% do engajamento que produzem sobre o tema é de valência negativa, e entre os influenciadores, 96,8%. São os dois tipos de ator que concentram a conversa — 47,0% e 43,0% do engajamento total do recorte, respectivamente —, e ambos falam do julgamento, dos mandantes, das investigações e das condenações num registro de denúncia e revolta, não de relato. A mídia jornalística, que responde por 1,8% do engajamento no polo negativo, tem ali 53,0% de sua produção nesse tom, mas é no neutro que se distingue: 97,7% do engajamento neutro do recorte vem dela, o que confirma o papel de quem narra os fatos enquanto os demais os interpretam. O positivo existe, mas é residual e dividido quase igualmente entre influenciadores (1,4% do total) e políticos (1,4%), com o artista cultural aparecendo apenas como cauda — sinal de que a memória celebrativa de Marielle, quando atravessa o campo da justiça, o faz em chave minoritária diante do peso da cobrança por responsabilização.

Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta uma evidência precisa: a conversa de justiça sobre Marielle é sustentada por atores políticos e influenciadores em tom negativo, o que sugere que o tema funciona menos como debate institucional e mais como mobilização afetiva em torno da impunidade — a valência negativa, aqui, não é rejeição a Marielle, e sim indignação com o que ainda não foi resolvido. É essa concentração de voz e de tom que o índice deve registrar: quando a justiça é pautada por quem tem capital de mobilização, e não pelo relato jornalístico, o discurso ganha força de cobrança e perde espaço para a deliberação.

36 · A conversa de JUSTIÇA mês a mês: as emoções
36 · A conversa de JUSTIÇA mês a mês: as emoções
  • Indignação
  • Tristeza
  • Esperança
  • Alegria
  • Desprezo
  • Raiva
  • Orgulho
  • Surpresa
  • Medo
  • Nojo

A conversa de justiça em torno do nome de Marielle Franco é, mês a mês, uma conversa de indignação — e a série mostra que essa indignação não apenas se manteve dominante como se tornou quase exclusiva à medida que o caso avançou para o julgamento. Tomando como base as emoções expressas (o repertório afetivo que o texto mobiliza, na tradição de Jasper) e medindo a composição de cada mês pelo engajamento, o quadro é de monotonia emocional crescente: em julho a indignação responde por 99,9% do engajamento do mês, com a tristeza em 0,1% e a esperança em 0,0%; em agosto o repertório se abre um pouco — o desprezo passa a responder por 39,2%, a indignação por 38,1% e a raiva por 21,0%, com orgulho em 1,1% e esperança em 0,6% —, e em setembro a indignação volta a concentrar 59,1%, seguida de surpresa em 20,6%, medo em 8,0%, tristeza em 5,6%, desprezo em 4,5%, raiva em 2,1% e esperança em 0,1%. O que o gráfico mede, portanto, não é quanto se falou de justiça para Marielle, mas com que afeto se falou: e o afeto é o da denúncia, não o da reparação. A esperança — a emoção que sinalizaria confiança no desfecho institucional — nunca passa de 0,6% em qualquer mês, e a alegria e o orgulho, quando aparecem, ficam na casa de 1% ou abaixo; a curva emocional do caso é a de uma ferida que se reabre, não a de uma justiça que se cumpre.

Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta um dado incômodo e preciso: a conversa de justiça sobre Marielle é conduzida quase inteiramente pelo polo negativo do afeto — indignação, desprezo, raiva, medo, tristeza —, e a concentração da indignação em julho e setembro sugere que os picos de mobilização em torno do nome coincidem com os momentos de maior tensão institucional do caso, não com os de resolução. A presença da surpresa em 20,6% em setembro, num mês em que a indignação ainda domina, indica um debate que reage a revelações e reviravoltas mais do que a desfechos; e a ausência quase total de esperança e orgulho aponta para um discurso público em que a memória de Marielle é acionada como cobrança — prestação de contas, lei impessoal, separação entre o público e o privado — e não como celebração de um legado. Em termos de qualidade democrática, é um retrato ambíguo: a sociedade não esqueceu, mas também não transformou a lembrança em confiança. O gráfico, lido em composição e não em volume, diz que o nome de Marielle sustenta um discurso de justiça permanentemente aberto — e um índice que queira medir a saúde democrática a partir daí precisa registrar que a indignação, sozinha, não fecha o ciclo: ela o mantém vivo.

37 · As publicações mais engajadas sobre o julgamento e os mandantes

Ordenadas por interações no recorte do quadro.
#PublicaçãoInterações ▾Alcance
1 André Mendonça não afastou apenas o Direitor-geral da Polícia Federal. Ele afastou também o diretor da PF responsável por resolver o caso Marielle e por investigar a corrupção no governo Cláudio Castro. A propósito, quem é esse sujeito na foto com o Mendonça? https://t.co/3mk4UmYVinicios Betiol · Político · Twitter/X · 2026-09-08Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo · Indignação · Surpresa 13.329 66.536
2 ⚖️ O Supremo Tribunal Federal determinou o início da cobrança de R$ 7 milhões em indenizações dos condenados pelos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Do total, R$ 3 milhões serão destinados à família de Marielle, outros R$ 3 milhões aos pareBastidores do Rio · Usuário genérico · Instagram · 2026-09-09Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Nao aplicavel 6.506 0
3 Até o delegado que solucionou o Caso Marielle Franco, descobrindo quem eram os mandantes do assassinato da vereadora, foi alvo de pedido de afastamento de André Mendonça. Leandro Almada também liderou as investigações que apontaram a corrupção de Claudio Castro, aliado de Flávio.Ricardo Pereira · Político · Twitter/X · 2026-09-08Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Negativo · Indignação 6.095 19.466
4 A decisão de André Mendonça de afastar dois diretores da Polícia Federal - justamente os responsáveis pelas investigações do Banco Master e do caso Marielle, é perigosíssina e faz da estratégia da extrema direita de voltar ao poder. Não há espaço para ingenuidade. A atitude do iFernanda Melchionna 5050 · Político · Instagram · 2026-09-10Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo · Indignação · Medo 5.609 0
5 🚨BRASIL: Ronnie Lessa detalha como matou Marielle Franco, em entrevista para o 'Doc Investigação', da Record. https://t.co/2zn2lq8kPJCHOQUEI · Influenciador · Twitter/X · 2026-08-28Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Negativo 4.418 262.752
6 Gravíssima a situação! Os diretores da PF colocando o cargo à disposição, em solidariedade ao Andrei Rodrigues. Andrei, enquanto chefe da Polícia Federal, desvendou o assassinato de Marielle Franco, prendeu os deputados do Rio envolvidos com o Comando Vermelho, investigou o esqTALÍRIA 5077 · Político · Twitter/X · 2026-09-08Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo · Indignação 3.774 15.889
7 Quem não deve não teme né "Se não fosse a Polícia Federal o mandante do assassino da Marielle Franco não estaria preso", diz Lula em entrevista ao Jornal da RecordMídia NINJA · Mídia jornalística · Twitter/X · 2026-09-15Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Positivo 3.704 20.201
8 Esse cara está ligado diretamente a todos os núcleos políticos que assaltaram o estado nos últimos anos A vice dele é a irmã do Washington Reis, porra O MANDANTE do ASSASSINATO de MARIELLE era SECRETÁRIO dele porra Quem apoia esse cara, apoia a situação atual que o RJ viveCariocaminion⚡ · Influenciador · Twitter/X · 2026-08-23Caso Marielle: investigação, julgamento e mandantes · Negativo · Raiva · Indignação 2.964 150.402
9 Fui convidada a participar da série de sabatinas realizadas pela RecordNews, que se inicia nesta quarta-feira (02), com as candidaturas ao Senado no Rio de Janeiro. Havia aceitado participar da entrevista, porém, decidi por não comparecer ao dia de gravação depois que a RecordTV Monica Benicio 5️⃣0️⃣0️⃣ · Político · Instagram · 2026-09-04Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Negativo · Indignação · Tristeza 2.459 0
10 Resumo as dez lições do risco-Bolsonaro. A primeira está no curriculum vitae do pai e dos filhos. Note a onipresença de milicianos, 'rachadinhas', de dinheiro vivo, do interesse nacional subordinado a interesse familiar. O filho-candidato foi um dos dois votos contra a CPI das miBlog do Noblat · Jornalista (perfil individual) · Twitter/X · 2026-08-27Caso Marielle: investigação, julgamento e mandantes · Negativo · Indignação · Desprezo 2.198 16.042
11 A quem interessa enfraquecer a direção e a inteligência da Polícia Federal? Essa é a PF que avançou na investigação do assassinato de Marielle, prendeu Daniel Vorcaro, desvendou o esquema de fraude no INSS e conduziu as investigações que levaram Bolsonaro à prisão. Agora, o dirErika Kokay · Político · Instagram · 2026-09-09Escândalos e disputas do ciclo 2026 · Negativo · Indignação · Surpresa 2.180 0
12 ⚠️ATENÇÃO: Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, irá participar de uma entrevista para o documentário "Doc Investigação", da Record. O programa irá ao ar nesta quinta, às 22:30. Participe: https://t.co/JAhIm11oaB https://t.cBAÚ DO RIO OFC · Influenciador · Twitter/X · 2026-08-26Marielle Franco: nome, memória e mobilizações · Negativo 1.906 178.269

Entre as publicações mais engajadas que cruzam o nome de Marielle Franco com o vocabulário do julgamento e dos mandantes, o que se vê é a justiça pelo caso convertida em termômetro da disputa institucional do ciclo — e não em memória celebrativa. A evidência está na composição: a maior fatia isolada do engajamento, 24,1% do total, é de um político que lê o afastamento de diretores da Polícia Federal determinado por André Mendonça como golpe contra quem resolveu o caso Marielle e investigava a corrupção no governo Cláudio Castro; somadas as fatias de oposição, elas dominam o topo, e o tom negativo atravessa quase todas as linhas, com a indignação como emoção recorrente. Quem fala é sobretudo político e influenciador, e o alvo citado é a própria Polícia Federal e a decisão judicial — o que este gráfico mede, portanto, é exposição (curtidas, comentários e compartilhamentos somados), não prevalência de discurso: são poucos casos concentrando a audiência, e o alcance de 262.752 visualizações de uma publicação informativa sobre a confissão de Ronnie Lessa mostra que o interesse pelo nome se reativa por episódios judiciais, não por efemérides.

Para um índice qualitativo de democracia, o que este gráfico aporta é a evidência de que o nome de Marielle funciona hoje como marcador de vulnerabilidade institucional: quando o caso entra na agenda, entra pela via do conflito entre órgãos de investigação e do questionamento sobre a quem interessa enfraquecer a Polícia Federal — pergunta que uma das publicações faz literalmente. É um discurso de prestação de contas e de impessoalidade da lei em disputa, com a confiança institucional posta à prova e a polarização operando no eixo institucional, não no afetivo-identitário. O gráfico, isolado, não diz se esse enquadramento é majoritário no debate inteiro; diz que, quando o assunto viraliza, é assim que ele soa.

38 · A conversa de MEMÓRIA E MOBILIZAÇÃO (atos, homenagens, legado): os enquadramentos
38 · A conversa de MEMÓRIA E MOBILIZAÇÃO (atos, homenagens, legado): os enquadramentos
  • Positivo
  • Negativo

A memória de Marielle Franco é disputada como direito, não como luto: no cruzamento entre enquadramentos específicos e valência, os Direitos e liberdades concentram 19,8% do engajamento total do recorte e aparecem em tom positivo em 90,1% das vezes, enquanto a violência de gênero se reparte quase ao meio entre positivo (12,9% do total, 51,6% na base) e negativo (12,1% do total, 48,4% na base) e o feminicídio pende para o negativo (9,9% do total, 68,0% na base). O dado que organiza a leitura é a assimetria entre o que a memória afirma e o que a memória denuncia: o polo positivo deste gráfico é o da conquista — direitos, justiça territorial (4,2% do total, 99,3% na base em positivo) e desigualdade estrutural (1,0% do total, integralmente positiva) —, e o polo negativo é o do crime e da impunidade, onde corrupção moral aparece em 12,6% do total e 100% em tom negativo, seguida do feminicídio negativo e do conflito povo versus elite (5,0% do total, 92,7% na base em negativo). Vale dizer: a homenagem e o ato, quando enquadrados como direito, produzem exposição em chave afirmativa; a violência, quando nomeada, produz exposição em chave de acusação. São dois motores afetivos distintos operando sobre o mesmo nome.

Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico aporta uma medida de como o discurso da memória se comporta diante do dano: a violência de gênero é o único enquadramento relevante que se divide praticamente em partes iguais entre os dois tons, o que indica terreno ainda em disputa — lembrada tanto como pauta de reparação quanto como espetáculo do crime —, enquanto a corrupção moral só existe em negativo e a ameaça à democracia aparece em 2,0% do total, com 90,2% na base em negativo. A presença de espetacularização política em 8,3% do total, integralmente positiva, sugere que parte da exposição da memória se dá pela via da celebração pública e do gesto, não da denúncia. No conjunto, o gráfico mostra que a conversa de memória e mobilização em torno de Marielle é majoritariamente afirmativa quando fala de direitos e de território, e acusatória quando fala de violência e de impunidade — e que é essa composição, e não o volume, que um índice de qualidade democrática deve registrar.

39 · A conversa de MEMÓRIA: quem a sustenta (tipo de ator) e com que posicionamento
39 · A conversa de MEMÓRIA: quem a sustenta (tipo de ator) e com que posicionamento
  • Apoio
  • Oposição
  • Neutro informativo

A memória de Marielle Franco é sustentada sobretudo por quem tem a defender o seu nome, e não por quem o disputa: no cruzamento entre quem publica e o posicionamento assumido, o apoio concentra a maior parte da exposição em praticamente todos os tipos de ator, com o político respondendo por 21,7% do engajamento total do recorte e 62,0% do engajamento da própria categoria, o influenciador por 17,1% do total e 53,6% da sua, e o usuário comum por 15,5% do total e 96,3% da sua — este último quase inteiramente mobilizado em favor da memória, o que indica que a defesa do legado de Marielle se difundiu para além das bancadas e dos perfis profissionais. A oposição existe, mas é minoritária e concentrada: responde por 13,4% do total entre os políticos, o que equivale a 38,0% do engajamento dessa categoria, e por 7,4% entre os influenciadores, com 23,1% da sua — ou seja, o campo que ataca a memória de Marielle é sobretudo um campo de políticos e influenciadores, não de cidadãos comuns, cuja oposição é residual (0,6% do total, 3,7% da categoria). O neutro informativo aparece quase exclusivamente entre influenciadores (7,4% do total, 94,6% da categoria), o que sugere que a memória circula também como pauta de informação, e não apenas como bandeira.

Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta um dado decisivo: a memória de Marielle é um campo de disputa assimétrico, em que a coalizão de apoio é ampla e transversal — políticos, influenciadores, empresas, movimentos sociais e cidadãos —, enquanto a oposição é estreita e profissionalizada. Isso não significa que o debate seja pacífico: significa que a contestação à memória não vem da sociedade difusa, mas de atores com capital político e midiático, o que desloca a pergunta democrática da quantidade de ataques para a sua origem. A presença de empresas e movimentos sociais exclusivamente no apoio (100,0% de cada categoria) reforça a leitura de que a memória de Marielle funciona hoje como um consenso civil amplo, contestado por uma minoria organizada — e é essa assimetria entre a base social do apoio e a base institucional da oposição que um índice de qualidade democrática precisa capturar.

40 · A conversa de MEMÓRIA mês a mês: as emoções que sustentam a lembrança
40 · A conversa de MEMÓRIA mês a mês: as emoções que sustentam a lembrança
  • Esperança
  • Alegria
  • Orgulho
  • Tristeza
  • Indignação
  • Desprezo
  • Raiva
  • Medo

A memória de Marielle Franco é sustentada por um afeto afirmativo: no mês em que a conversa sobre memória, homenagem e legado ganha corpo, a esperança responde por 42,9% do engajamento e o orgulho por 27,3%, enquanto a indignação fica em 16,7% e a tristeza em 10,3%. O gráfico mede a composição mensal do engajamento (curtidas, comentários e compartilhamentos, isto é, exposição) entre as emoções expressas nas publicações que citam Marielle e, ao mesmo tempo, falam de memória — homenagem, estátua, rua, escola, prêmio, ato, vigília, instituto. O que ele mostra é que a lembrança de Marielle não é organizada pelo luto, e sim pela celebração: a soma de esperança e orgulho responde por mais de dois terços do engajamento do mês, contra pouco mais de um quarto de indignação e tristeza somadas. A alegria, que em agosto respondia por 14,7% do engajamento, recua para um patamar residual em setembro, e o medo aparece de forma marginal, o que sugere que a memória de Marielle circula menos como denúncia do que como afirmação de pertencimento e continuidade — a chave do "Marielle presente".

Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta um dado relevante: a memória de uma vítima da violência política brasileira é apropriada por um repertório emocional positivo, o que indica que o nome de Marielle funciona como símbolo de resistência e de projeto, e não apenas como ferida aberta. A presença da indignação em 16,7% do engajamento de setembro, ainda que minoritária, mostra que a dimensão de justiça não desapareceu da conversa sobre memória — ela coexiste com a celebração, sem subordiná-la. Em termos de qualidade democrática, isso sugere que a sociedade civil e os atores que sustentam a memória de Marielle conseguem transformar a dor em mobilização afirmativa, o que é um indicador de vitalidade cívica e de capacidade de elaboração simbólica diante da violência. O gráfico, portanto, não mede apenas emoções: mede a forma como uma democracia processa a memória de suas vítimas, e o resultado aponta para uma memória que afirma mais do que denuncia.

41 · Os lugares citados junto ao nome, e o tom de cada citação
41 · Os lugares citados junto ao nome, e o tom de cada citação
  • Positivo
  • Negativo
  • Neutro

A geografia que o nome de Marielle Franco convoca no debate não é a geografia do crime, e sim a da disputa política que se travou em torno dele: entre os lugares citados junto ao nome, o tom negativo concentra-se em Mendonça (SP), com 31,9% do engajamento total do gráfico e 93,3% do engajamento atribuído a esse lugar, e em Cláudio (MG), com 18,1% do total e 89,0% dentro do próprio lugar — dois municípios de pequeno porte que, no entanto, respondem por metade da exposição do recorte, o que sugere que a associação do nome a essas localidades se dá quase exclusivamente em chave hostil. O Rio de Janeiro, território do assassinato e da atuação da vereadora, aparece de forma dividida: 13,6% do engajamento total em tom positivo, com 80,4% do lugar nesse tom, contra 3,3% em tom negativo, com apenas 19,6% do lugar — ou seja, quando o Rio entra na conversa, entra majoritariamente pela via da memória e da homenagem, não da controvérsia. Salvador é o caso mais informativo para um índice qualitativo de democracia: 6,3% do engajamento total e 99,9% do lugar em tom neutro, com 90,6% do segmento neutro concentrado ali, o que indica um uso do nome em registro informativo ou institucional, sem carga valorativa — padrão que se repete, em menor escala, em Pernambuco (6,1% do total, integralmente positivo) e no Distrito Federal (1,8% do total, integralmente positivo). O Nordeste, por sua vez, aparece com 4,7% do engajamento total e 100% em tom negativo, contraste que merece atenção: a região de origem política de Marielle é citada, nesse recorte, apenas em chave adversa, enquanto a Bahia registra 1,7% do total com 99,7% do lugar em tom negativo. Os lugares de menor peso — Quilombo (SC), Jangada (MT), Água Doce (SC), Jaboatão dos Guararapes (PE), Guararapes (SP), entre outros — aparecem integralmente em tom positivo, mas com participações que não sustentam leitura própria.

Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico oferece um achado que interessa diretamente: a valência associada ao nome de Marielle não se distribui de forma difusa, mas se concentra em polos territoriais bem definidos, com dois municípios de pequeno porte absorvendo a maior parte da exposição negativa e os grandes centros — Rio, Salvador, Pernambuco, Distrito Federal — concentrando o tom positivo ou neutro. Isso sugere que a disputa sobre o nome não é uma disputa nacional homogênea, mas uma disputa localizada, em que determinados territórios funcionam como focos de narrativa adversa enquanto outros operam como espaços de memória e de registro institucional — e é essa assimetria territorial, e não um suposto consenso em torno do nome, que um índice qualitativo de democracia precisa capturar. O dado que mais pesa nessa direção é a concentração do tom neutro em Salvador: quando quase a totalidade do engajamento de um lugar se dá em registro informativo, o nome de Marielle deixa de funcionar como bandeira e passa a funcionar como referência institucional, o que é qualitativamente distinto de ser homenageada ou atacada. Vale dizer: o gráfico mede exposição, não prevalência de discurso, de modo que a leitura correta é sobre onde o nome circula com mais força e com que carga, não sobre quantos atores sustentam cada tom. Ainda assim, a clivagem é nítida o bastante para sustentar uma hipótese: a memória de Marielle, quando territorializada, ou se converte em pauta de justiça e legado nos grandes centros, ou se converte em alvo nos municípios onde a narrativa adversa encontrou eco — e o índice ganharia em distinguir esses dois regimes, porque um mede a vitalidade democrática da memória e o outro mede a sua contestação.

42 · Os termos pelos quais o assunto entra na base (o vocabulário da mobilização)
42 · Os termos pelos quais o assunto entra na base (o vocabulário da mobilização)

O vocabulário pelo qual o nome de Marielle Franco entra no debate é, ele mesmo, um vocabulário de mobilização: a hashtag #MarielleFranco responde por 83,3% de todo o engajamento do recorte, e a soma de todas as demais entradas — nomes de acusados, de instituições, de aliados, de veículos — não chega a um quinto disso. O que este gráfico mostra, portanto, não é a distribuição de um assunto entre termos concorrentes, mas a existência de um significante único que absorve a conversa: quem fala de Marielle o faz sob o próprio nome dela, e não sob a rubrica do crime, do julgamento ou da memória. A hashtag #MariellePresente, que nomeia explicitamente a gramática da memória militante, responde por 1,6% do engajamento total do recorte, e o termo "Agenda Marielle Franco", que designa o programa de incidência política do instituto, por uma fração ainda menor — a mobilização organizada comparece, mas como franja do que o nome sozinho já evoca. Entre os termos que puxam o restante, a ordem é reveladora: Domingos Brazão (2,9%), Marielle (2,9%) e André Mendonça (2,4%) vêm à frente de Chiquinho Brazão (1,4%), Bolsonaro (1,3%), Leandro Almada (1,0%), Cláudio Castro (0,9%) e Anderson Gomes (0,9%), o que indica que o debate orbitando o nome é hoje sobretudo o debate sobre a justiça do caso — mandantes, conselheiro do Tribunal de Contas, governador, ministro do Supremo —, e não sobre a memória da vereadora ou sobre a violência política que a matou. Anderson Gomes, o motorista assassinado com ela, aparece com o mesmo peso de Cláudio Castro: a vítima colateral do crime entra no vocabulário do debate com a mesma força com que entra um governador citado por associação.

Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta uma advertência metodológica antes de qualquer conteúdo: a concentração quase absoluta do engajamento em um único termo significa que o nome funciona como guarda-chuva afetivo sob o qual convivem gramáticas distintas — a da cobrança de justiça, a da homenagem, a da disputa institucional —, e que medir a qualidade do discurso "em torno de Marielle" é medir, na prática, a qualidade do discurso que se abriga sob esse nome. Os termos periféricos, com pesos residuais, são justamente os que nomeiam as instituições e os acusados: o Supremo, o Tribunal de Contas, o governo do Rio, o Comando Vermelho, a Assembleia Legislativa, todos abaixo de 1% do engajamento do recorte. A consequência para o índice é direta: se as dimensões de confiança institucional, exigência de prova e vulnerabilidade democrática forem medidas nesse recorte, elas estarão medindo, em esmagadora maioria, textos que falam sob o nome de Marielle e não sob o nome das instituições — o que significa que a desconfiança, a cobrança de prova e a própria disputa sobre a verdade chegam ao índice já filtradas pelo afeto e pela autoridade moral que o nome carrega. É uma diferença que importa: um ataque ao Supremo feito sob a hashtag #MarielleFranco não pesa o mesmo, para a leitura democrática, que um ataque ao Supremo feito sob a rubrica do julgamento, e este gráfico mostra que a segunda forma de entrar no assunto é residual. O nome, em suma, não é apenas o recorte do painel; é o enquadramento pelo qual o painel inteiro entra em contato com o debate, e um índice que se pretenda qualitativo precisa saber que está lendo o discurso democrático brasileiro através de uma lente que a própria sociedade ergueu como homenagem e como cobrança.

43 · Em que subtemas do debate o nome circula, e com que tom
43 · Em que subtemas do debate o nome circula, e com que tom
  • Negativo
  • Positivo
  • Neutro

O nome de Marielle Franco circula no debate público majoritariamente por subtemas de memória e mobilização e por escândalos e disputas do ciclo político de 2026, e em ambos o tom negativo domina a exposição: no subtema de memória e mobilizações, o negativo responde por 59,5% do engajamento da base e o positivo por 34,5%, enquanto nos escândalos e disputas do ciclo 2026 o negativo alcança 95,6% da base. Lido em composição, o subtema de memória e mobilizações é o único em que o positivo tem peso relevante — 88,4% de tudo o que é positivo naquele segmento —, o que sugere que a evocação do nome como legado, homenagem e ato convive com a leitura da perda e da injustiça, sem que uma anule a outra; já o subtema do caso Marielle, investigação, julgamento e mandantes, aparece quase inteiramente negativo, com 92,7% da base, e o subtema de feminismo, direitos das mulheres e igualdade de gênero surge praticamente todo positivo, com 99,1% da base. Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta a evidência de que o nome de Marielle funciona como ponto de condensação de duas gramáticas distintas — a da memória afirmativa e a da denúncia —, e que a qualidade democrática do discurso em que o nome aparece depende de qual dessas gramáticas o subtema mobiliza: onde prevalece a denúncia, o tom negativo é quase unânime; onde prevalece a memória, o positivo encontra espaço proporcionalmente expressivo.

44 · Marielle e DIREITOS HUMANOS: os enquadramentos quando os dois campos se encontram
44 · Marielle e DIREITOS HUMANOS: os enquadramentos quando os dois campos se encontram
  • Apoio
  • Oposição
  • Neutro informativo

O gráfico mede o encontro entre o nome de Marielle Franco e o campo dos direitos humanos, e o que ele revela é que esse encontro é majoritariamente um discurso de afirmação, não de denúncia: entre os enquadramentos específicos que cruzam os dois campos, Direitos e liberdades concentra 16,3% do engajamento total do recorte e aparece em 94,8% das vezes sob posicionamento de apoio, enquanto Justiça territorial responde por 9,6% do total e se divide entre apoio (58,3% dentro do enquadramento) e relato neutro (41,7%). Violência de gênero, o terceiro enquadramento mais engajado, com 6,9% do total, é o único que se apresenta sobretudo como relato informativo (33,4% do segmento neutro), e Defesa da ordem, também com 6,9%, aparece integralmente como neutro informativo. Ameaça à democracia, com 6,5%, é quase toda oposição (96,7% dentro do enquadramento), e Desigualdade estrutural, com 5,3%, também se inclina à oposição (64,7%). Racismo, com 3,2%, é 93,7% oposição. Ou seja: quando o nome de Marielle se encontra com os direitos humanos, o campo se organiza em torno de uma gramática afirmativa — direitos, território, igualdade —, e a oposição, quando aparece, o faz por enquadramentos de ameaça à democracia, corrupção moral e racismo, não por disputa do campo de direitos.

Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta uma evidência específica: o encontro entre o nome e os direitos humanos não é um campo de polarização alta — 64% dos textos têm polarização baixa e 70% têm vulnerabilidade democrática baixa —, mas de assimetria de posicionamento. O apoio domina o volume (70% do recorte), e a oposição, quando se manifesta, o faz por enquadramentos que deslocam o eixo do debate: não nega os direitos, mas os enquadra como ameaça à ordem, corrupção moral ou ameaça à democracia. A confiança institucional é majoritariamente de desconfiança (56%), e a exigência de prova é moderada (67%), o que sugere que o campo de direitos humanos em torno de Marielle se sustenta mais por afirmação de valores — autotranscendência em 88% dos textos, bem comum em 34% — do que por cobrança de evidência. O que este gráfico mostra, portanto, é que o nome de Marielle, quando cruzado com direitos humanos, funciona menos como acusação e mais como plataforma de valores: a fundação moral do cuidado aparece em polo virtuoso em 43% dos textos de apoio, e a liberdade em polo virtuoso em 75% deles, enquanto a oposição aciona o vício do dano em 100% dos seus textos. É um retrato de um campo que já venceu a batalha do enquadramento e agora disputa a da institucionalização. O dado que fecha essa leitura está na distribuição dos papéis actanciais-morais, que o MAPAM, o Modelo de Análise de Papéis Actancial-Morais, define como as posições de vítima, agressor, protetor, reparador, comunidade e estrutura que o autor atribui a quem cita: Marielle aparece como vítima em 38% das atribuições, o agressor em 34%, e o reparador em apenas 5% — a reparação, que é o que um índice de democracia deveria medir com mais atenção, é o papel menos mobilizado de todos. Some-se a isso que a confiança institucional se reparte entre desconfiança (56%) e confiança seletiva (44%), sem que a confiança plena apareça, e que a disputa informacional se dá quase toda como contestação da mídia (67%) e suspeita conspiratória (33%), e o quadro se completa: o encontro entre Marielle e os direitos humanos produz um discurso de alta adesão afetiva e baixa exigência de reparação institucional. Para o índice, isso significa que a qualidade democrática desse campo não se mede pela intensidade da denúncia — ela é moderada —, mas pela capacidade de converter a memória em cobrança: enquanto o agressor é nomeado em um terço das atribuições e o reparador em uma fração mínima, o nome de Marielle opera mais como símbolo de valores compartilhados do que como instrumento de responsabilização. É esse o achado que este gráfico entrega ao painel.

45 · Marielle e DIREITOS HUMANOS: as emoções desse encontro
45 · Marielle e DIREITOS HUMANOS: as emoções desse encontro
  • Positivo
  • Negativo

O cruzamento entre emoções e valência no encontro do nome de Marielle Franco com o campo dos direitos humanos mostra que a exposição do assunto se organiza, sobretudo, em torno de afetos afirmativos: o orgulho responde por 36,2% do total e a esperança por 30,9%, somando pouco mais de dois terços do engajamento, enquanto a indignação, com 17,4%, a raiva, com 7,0%, e o desprezo, com 4,9%, compõem a fatia negativa. A leitura importa para um índice qualitativo de democracia porque revela que a memória de Marielle, quando atravessa o vocabulário dos direitos humanos, é mobilizada menos como denúncia em curso e mais como legado afirmado: a valência positiva concentra 53,9% do engajamento na categoria do orgulho e 46,0% na da esperança, ao passo que a negativa se reparte entre indignação, raiva e desprezo, com a tristeza aparecendo em apenas 1,8% do total. Ou por outra: o luto não é o registro dominante; o que circula é a celebração de uma trajetória e a projeção de continuidade, e a quase totalidade das publicações de cada emoção se dá em valência única — o orgulho em 98,7% dos casos na positiva, a indignação em 99,8% na negativa —, o que indica um campo discursivo de tom consistente, sem mistura apreciável de sentimentos contraditórios.

Vale dizer que esse perfil conversa com o restante do retrato do recorte: a autotranscendência responde por 88% das orientações de valor, o cuidado aparece em polo virtuoso em 43% dos textos e a igualdade comunitarista ocupa integralmente o quadrante cultural, enquanto a polarização é baixa em 64% das publicações e a vulnerabilidade democrática, baixa em 70%. O gráfico, portanto, sustenta uma tese específica: no ponto em que o nome de Marielle encontra os direitos humanos, o debate não se organiza pela ferida — organiza-se pela afirmação de um pertencimento e de uma promessa, e é essa gramática emocional que dá ao assunto sua capacidade de circular. Para um índice de democracia, o dado sugere que a memória de Marielle funciona menos como acusação e mais como repertório de valores compartilhados, o que reforça a coesão do campo e, ao mesmo tempo, deixa a indignação com peso minoritário na exposição total.

46 · Marielle e DIREITOS HUMANOS: os papéis distribuídos (MAPAM)
46 · Marielle e DIREITOS HUMANOS: os papéis distribuídos (MAPAM)
  • Apoio
  • Oposição
  • Neutro informativo

O gráfico mostra que, quando o nome de Marielle Franco aparece no campo dos direitos humanos, o discurso não se organiza em torno de quem protege, mas em torno de quem sofre e de quem mata: vítima e agressor concentram, cada um, 62,1% do engajamento da base de papéis actanciais-morais, e o fazem de maneira quase idêntica, com 23,5% do total cada. O MAPAM, o Modelo de Análise de Papéis Actancial-Morais, identifica quem o autor atribui como vítima, agressor, protetor, reparador, comunidade ou estrutura numa situação de dano; aqui, a distribuição revela um debate que nomeia o dano e a autoria da violência, mas deixa em segundo plano a reparação e a proteção. Protetor responde por 10,9% do total e Estrutura por 10,0%, enquanto Comunidade (0,6%) e Reparador (0,2%) são residuais — o que sugere que a conversa sobre Marielle nos direitos humanos é mais sobre o crime e suas vítimas do que sobre as instituições que deveriam prevenir ou corrigir.

O cruzamento com o posicionamento qualifica essa leitura. Entre os textos de apoio, vítima e agressor aparecem com 40,5% e 40,6% do segmento, e o protetor sobe para 18,7% — ou seja, quem defende a pauta aciona o protetor três vezes mais que quem se opõe (5,7%). Já a oposição concentra a Estrutura: 23,8% do segmento, contra nenhum registro no apoio. Vale dizer: o campo que se opõe ao tema não vitimiza nem protege; ele aponta a estrutura como causa. O relato neutro é quase inexistente (0,0% do total), o que indica que, neste recorte, falar de Marielle e direitos humanos é tomar partido. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é ambíguo e por isso mesmo valioso: há reconhecimento robusto da vítima e denúncia do agressor, mas a baixa presença de protetor e reparador sinaliza que o debate público ainda não converteu a memória de Marielle em cobrança institucional de prevenção e reparação.

47 · Marielle e DIREITOS HUMANOS mês a mês: o tom
47 · Marielle e DIREITOS HUMANOS mês a mês: o tom
  • Positivo
  • Negativo
  • Neutro

O gráfico mede o tom do engajamento — a valência, isto é, o sentimento geral que o texto expressa — das publicações que cruzam o nome de Marielle Franco com o campo dos direitos humanos, mês a mês, e o que ele revela é uma inflexão recente: o discurso que era quase unanimemente positivo até agosto de 2026 vira, em setembro, um debate de maioria neutra e com forte presença negativa. Nos meses de julho e agosto, a composição é de hegemonia positiva — 86,1% e 89,9% do engajamento do mês, contra 13,9% e 10,1% de negativo —, o que descreve um campo em que o nome de Marielle, quando atravessado por violência política, racismo, feminicídio, favela e periferia, funciona como símbolo de memória e de luta, e não como objeto de controvérsia. Em setembro, essa composição se rompe: o neutro passa a responder por 45,6% do engajamento do mês e o negativo por 36,7%, enquanto o positivo recua para 17,7%. A leitura que os números sustentam é que o nome de Marielle deixou de circular apenas como bandeira de memória e passou a ser arrastado para dentro de uma disputa em que o tom positivo perde centralidade — movimento que, para um índice qualitativo de democracia, importa menos pelo volume e mais pela qualidade do ambiente discursivo: um símbolo de direitos humanos que perde a hegemonia do tom afirmativo e ganha peso neutro e negativo indica que o campo em que ele aparece está sendo ocupado por enquadramentos de relato e de ataque, e não de homenagem.

48 · O debate amplo de direitos humanos (sem o nome de Marielle): enquadramentos e tom
48 · O debate amplo de direitos humanos (sem o nome de Marielle): enquadramentos e tom
  • Negativo
  • Positivo
  • Neutro

O campo amplo de direitos humanos, quando o nome de Marielle sai de cena, é um terreno quase inteiramente negativo: oito dos dez enquadramentos mais mobilizados carregam valência negativa, e os três que lideram a exposição — racismo, guerra cultural e incompetência estatal — são, respectivamente, 80,5%, 73,1% e 98,9% negativos dentro de si mesmos, o que significa que a violação não é um ângulo entre outros, é o modo padrão de narrar o assunto. Racismo, o enquadramento que organiza a leitura do texto em torno da discriminação racial, responde por 11,3% do total e é o mais mobilizado do recorte; incompetência estatal, que atribui o dano à falha do poder público, é o mais monotônico de todos, praticamente sem voz positiva; e violência de gênero, que trata a agressão contra a mulher como problema público, aparece em quarto lugar com 6,6% do total, 73,7% negativo. O que esse retrato aporta a um índice qualitativo de democracia é a evidência de que, fora do nome próprio, o debate de direitos humanos no Brasil se faz pela denúncia da falha — o negativo é a gramática, não a exceção.

A exceção, e ela importa, é o enquadramento de direitos e liberdades, que trata a garantia de direitos como valor em si: é o único entre os maiores que se inclina ao positivo, com 63,9% de sua composição nesse tom, e responde por 4,8% do total. Há ainda um segundo sinal de disputa aberta: conflito povo versus elite, que opõe a população às elites, aparece dividido quase ao meio entre negativo e positivo, e desigualdade estrutural, que lê o dano como produto da organização social, também se reparte entre os dois tons, ainda que com predominância negativa. São os pontos em que o campo deixa de ser lamento e vira reivindicação — e é aí que um índice de qualidade democrática encontra o que medir além da queixa: a capacidade de converter a violação em pauta afirmativa. Vale notar que os enquadramentos de reparação e de justiça territorial aparecem quase todos em tom positivo, o que sugere que, quando o debate deixa de nomear o agressor e passa a nomear a resposta, ele muda de sinal.

49 · O debate amplo de direitos humanos: quem o ocupa e com que posicionamento
49 · O debate amplo de direitos humanos: quem o ocupa e com que posicionamento
  • Oposição
  • Apoio
  • Neutro informativo

O debate amplo de direitos humanos, quando medido pela exposição que recebe, é um debate de oposição — e é um debate de influenciadores, não de instituições. A evidência está na composição: entre os influenciadores, a oposição responde por 68,4% do engajamento da categoria, contra 19,3% do apoio e 12,3% do neutro informativo; entre os políticos, o apoio lidera com 57,2%, seguido da oposição, com 42,1%, e de uma fatia residual de relato. Ou por outra: quem ocupa o campo de direitos humanos com maior poder de circulação são vozes que se posicionam contra algo — contra a violência policial, contra o racismo, contra o feminicídio, contra a milícia, contra a execução extrajudicial —, enquanto o apoio explodes em exposição sobretudo quando vem de influenciadores, que somam 19,3% da própria categoria nesse polo, e de políticos, que fazem dele a sua posição majoritária. Vale dizer: o apoio a direitos humanos, no discurso que mais roda, é uma bandeira de governo e de militância; a oposição é o tom de quem denuncia. E há um dado que merece atenção: os usuários genéricos, tomados em conjunto, concentram 65,5% do seu engajamento na oposição, contra 14,0% no apoio e 20,5% no relato — o público que se engaja com o tema o faz majoritariamente para acusar.

O que este gráfico aporta a um índice qualitativo de democracia é a medida da assimetria entre quem fala e como fala. A mídia jornalística, que deveria ser o polo do relato, aparece com 54,7% do seu engajamento na oposição e apenas 31,5% no neutro informativo — o que sugere que, neste campo, a cobertura que circula não é a que informa, mas a que toma partido. Os movimentos sociais, por sua vez, são quase unânimes na oposição, com 93,7% do engajamento da categoria nesse polo, e os órgãos públicos, quando aparecem, o fazem quase inteiramente no apoio, com 92,0%. A leitura que se extrai é que o campo de direitos humanos, no discurso que efetivamente alcança público, não é um campo de consenso democrático: é um campo de disputa, no qual a denúncia contra o Estado e contra a violência estrutura a maior parte da exposição, e no qual o apoio institucional, embora exista, circula com menos força. Para um índice de qualidade democrática, isso significa que a vitalidade do tema não se mede pela quantidade de vozes que o defendem, mas pela intensidade com que ele é usado para acusar — e que a oposição, aqui, não é ruído: é o motor da conversa.

50 · Marielle e a SEGURANÇA PÚBLICA (polícia, milícia, operação, letalidade): os enquadramentos em disputa
50 · Marielle e a SEGURANÇA PÚBLICA (polícia, milícia, operação, letalidade): os enquadramentos em disputa
  • Oposição
  • Neutro informativo
  • Apoio

O gráfico mostra que, quando o nome de Marielle Franco aparece junto ao campo da segurança pública — polícia, milícia, operação, letalidade —, o enquadramento dominante é o de ameaça à democracia, e que esse enquadramento é quase todo construído pela oposição: ele responde por 29,7% do engajamento total do recorte e por 41,1% do engajamento da posição de oposição, com a totalidade de sua base concentrada nesse posicionamento. Enquadramento, aqui, é o modo como o texto organiza o assunto e seleciona o que importa; e o que a oposição seleciona, ao falar de Marielle e segurança, é a própria integridade do regime, não a eficácia da política de segurança. Logo atrás vem corrupção moral, com 18,6% do total e 26,0% do engajamento da oposição, e incompetência estatal, com 9,8% do total e 13,6% do segmento — três enquadramentos que, somados, fazem da leitura oposicionista uma acusação em cadeia: o Estado ameaça a democracia, corrompe-se moralmente e fracassa na sua função. Vale dizer: não é a segurança pública que está em disputa nesse campo, é a legitimidade de quem a opera.

O que o gráfico aporta a um índice qualitativo de democracia é a assimetria da gramática. O relato neutro não é neutro em conteúdo: violência de gênero responde por 8,0% do total e por 33,6% do engajamento do próprio segmento informativo, justiça territorial por 6,0% do total e 25,4% do segmento, e defesa da ordem por 6,0% do total e 25,4% do segmento — ou seja, o campo informativo é o único em que a dimensão de gênero e a dimensão territorial do caso ganham peso comparável ao da acusação institucional. Já o apoio é residual e disperso: defesa da ordem responde por 1,8% do total, mas por 41,5% do engajamento do próprio campo, o que indica um polo afirmativo que só se ativa para sustentar a ordem constituída, não para disputar o sentido do caso. A consequência para o índice é direta: medida a qualidade democrática do discurso em que Marielle aparece, o encontro do nome com a segurança pública produz um debate em que a acusação à democracia é o eixo de maior exposição e a violência de gênero — razão primeira do crime — só encontra espaço quando o texto se apresenta como relato.

51 · Marielle e a SEGURANÇA PÚBLICA: as instituições citadas e o papel que recebem (MAPAM)
51 · Marielle e a SEGURANÇA PÚBLICA: as instituições citadas e o papel que recebem (MAPAM)
  • Agressor
  • Vítima
  • Protetor
  • Estrutura
  • Reparador
  • Demais categorias

O gráfico mostra que, quando o nome de Marielle Franco aparece junto ao campo da segurança pública, a Polícia Federal concentra os papéis actanciais-morais atribuídos às instituições citadas, e o faz de modo internamente contraditório: ela é, ao mesmo tempo, o principal agressor e a principal vítima do enredo. O MAPAM, o Modelo de Análise de Papéis Actancial-Morais, identifica quem o autor do texto coloca como vítima, agressor, protetor, reparador, comunidade ou estrutura numa situação de dano ou risco, e aqui a Polícia Federal recebe o papel de agressor em 47,1% das citações que a tomam como base e o de vítima em 45,6% — praticamente a mesma proporção, o que indica que a instituição é o eixo em torno do qual o debate sobre Marielle e segurança pública se organiza, ainda que em direções opostas. O Supremo Tribunal Federal aparece em seguida com proporções idênticas nos dois papéis (47,7% como agressor e 47,6% como vítima), sugerindo que também ele é objeto de disputa narrativa, ora responsabilizado pela morosidade ou pelo desfecho do caso, ora tratado como alvo de pressão ou de descrédito. Já o papel de protetor é residual: na Polícia Federal, 5,1% das citações; no Supremo, 4,7% — e o de reparador é ainda mais escasso, com 0,7% na Polícia Federal e ausência no Supremo. As demais instituições citadas — partidos, o Ministério da Segurança Pública, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e o Congresso Nacional — distribuem-se de forma quase simétrica entre vítima e agressor, sem que nenhuma delas assuma protagonismo como protetora ou reparadora.

Para um índice qualitativo de democracia, o dado é revelador: o discurso que associa Marielle à segurança pública não constrói uma instituição capaz de proteger ou reparar o dano, mas um campo em que as instituições são simultaneamente acusadas e vitimizadas, o que sugere um debate público em que a responsabilização se dispersa e a confiança institucional se fragiliza. A simetria quase perfeita entre agressor e vítima nas duas principais instituições citadas — Polícia Federal e Supremo Tribunal Federal — indica que o nome de Marielle funciona menos como âncora de uma demanda por justiça institucional e mais como ponto de fricção em que a própria legitimidade das instituições é posta em jogo, sem que se configure um polo protetor ou reparador capaz de canalizar a indignação para uma saída institucional.

52 · Marielle e a SEGURANÇA PÚBLICA mês a mês: as emoções
52 · Marielle e a SEGURANÇA PÚBLICA mês a mês: as emoções
  • Indignação
  • Tristeza
  • Orgulho
  • Esperança
  • Desprezo
  • Raiva
  • Medo
  • Surpresa
  • Nojo

A indignação é a emoção que organiza o debate sobre Marielle Franco quando ele encontra a segurança pública, e o que muda de agosto para setembro de 2026 não é o predomínio dela, mas o que passa a acompanhá-la. Em agosto, a indignação responde por 48,5% do engajamento do mês e o desprezo por 40,4%, com o orgulho em 9,6% e as demais emoções residuais — uma composição de duas emoções fortes e quase nada mais, em que a memória de Marielle e a denúncia da violência letal aparecem juntas sob o signo do escárnio dirigido aos responsáveis. Em setembro, a indignação sobe a 56,1% do mês, mas o desprezo desaba a 1,4% e entram em cena a surpresa, com 26,3%, e o medo, com 16,0%; a esperança, que em agosto já era marginal, cai a 0,1%, e o nojo praticamente desaparece. A leitura que os dados sustentam é que o campo emocional do debate se deslocou do desprezo — a emoção do julgamento moral sobre quem falhou — para a surpresa e o medo, o que sugere que um episódio novo, e não a reiteração da memória, passou a comandar a atenção: surpresa e medo são emoções de choque e de ameaça, não de luto nem de celebração, e a queda do orgulho a 0,1% indica que a dimensão afirmativa do legado perdeu espaço para a reação ao acontecimento. Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta um componente de instabilidade afetiva: um debate que em um mês se organiza em torno da indignação com desprezo e no mês seguinte migra para indignação com surpresa e medo descreve uma opinião pública que reage a eventos em vez de sedimentar posições, e a ausência quase total de esperança nos dois meses — 0,3% em agosto e 0,1% em setembro — sinaliza que o nome de Marielle, no encontro com a segurança pública, é hoje um significante de denúncia e de temor, não de projeto ou de reparação.

53 · Marielle e as MULHERES NEGRAS NA POLÍTICA (mandato, representatividade, violência política de gênero): quem fala e com que posicionamento
53 · Marielle e as MULHERES NEGRAS NA POLÍTICA (mandato, representatividade, violência política de gênero): quem fala e com que posicionamento
  • Apoio
  • Neutro informativo
  • Oposição

O gráfico mostra que o apoio a Marielle Franco e à pauta das mulheres negras na política é, antes de tudo, um discurso de políticos e influenciadores, enquanto a oposição aberta é fenômeno quase exclusivo dos influenciadores — e é essa assimetria que interessa a um índice qualitativo de democracia. Lido pela exposição (o engajamento total, que soma curtidas, comentários e compartilhamentos), o retrato é nítido: entre os políticos, o apoio responde por 74,9% do engajamento do próprio grupo e a oposição por 25,1%; entre os influenciadores, a relação se inverte com folga, com a oposição concentrando 62,9% e o apoio 25,4%. Ou seja, o campo político que se pronuncia sobre o nome da vereadora o faz majoritariamente para sustentar o legado, a memória e a agenda de representatividade; o campo da influência digital, ao contrário, engaja mais quando ataca. A mídia jornalística aparece praticamente toda em neutro/relato — 99,9% do engajamento do próprio grupo —, e os usuários comuns também se concentram no relato, com 98,8%. No conjunto do recorte, o apoio dos políticos é a maior fatia isolada, com 25,4% do engajamento total, seguido da oposição dos influenciadores, com 18,4%, e do relato jornalístico, com 18,3% — três blocos quase empatados que revelam um debate partido entre celebrar, atacar e noticiar, sem que nenhum campo domine sozinho a conversa.

O que este gráfico aporta ao índice é a medida da coalizão e do adversário declarado. O apoio ao nome e à pauta das mulheres negras é sustentado por políticos, influenciadores, empresas e movimentos sociais, com os políticos à frente; a oposição, por sua vez, é quase toda de influenciadores, com uma fração residual de políticos e de usuários comuns. Vale dizer: quem ataca o legado de Marielle e a representatividade das mulheres negras o faz sobretudo fora do mandato, na arena da influência digital, enquanto quem defende o faz sobretudo de dentro da política institucional. Para um índice qualitativo de democracia, isso significa que a disputa sobre o nome não é simétrica: há um campo que se posiciona a favor com peso institucional e outro que se posiciona contra com peso de audiência, e a mídia, ao relatar quase sem tomar partido, funciona como palco dessa assimetria mais do que como árbitro dela.

54 · Marielle e as MULHERES NEGRAS NA POLÍTICA: que mulheres são citadas junto, e com que tom
54 · Marielle e as MULHERES NEGRAS NA POLÍTICA: que mulheres são citadas junto, e com que tom
  • Negativo
  • Positivo
  • Neutro

O gráfico mede o clima reputacional em torno de cada nome citado quando o debate sobre Marielle Franco encontra o campo das mulheres na política, e o que ele revela é uma assimetria estrutural: Marielle Franco é a única figura tratada com dois climas robustos e opostos, com 42,5% do engajamento em textos de valência positiva e 37,4% em textos de valência negativa entre os que a citam, enquanto Mônica Benício, viúva e vereadora, aparece com 60,5% de valência positiva e nenhuma fatia negativa relevante — o que sugere que a disputa sobre o legado de Marielle se concentra no próprio nome dela, não se transfere automaticamente a quem o carrega. Os nomes ligados à justiça do caso — André Mendonça, Cláudio Castro, Ronnie Lessa, Leandro Almada, Chiquinho Brazão — aparecem integralmente em valência negativa, o que indica que, neste recorte, o campo da responsabilização é lido como campo de acusação, e não de reparação; Anderson Gomes, o motorista assassinado com ela, aparece majoritariamente negativo, com 79,7% nessa valência entre os que o citam, o que sugere que sua memória circula colada ao crime e não a uma celebração própria. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é eloquente: a valência negativa não se distribui por igual entre os citados, concentra-se em Marielle e nos agentes do caso, e a positiva se adensa em Mônica Benício e em figuras periféricas do campo — o que sugere que a democracia brasileira ainda processa o nome de Marielle como ferida aberta, e não como memória pacificada.

55 · Marielle e as MULHERES NEGRAS NA POLÍTICA mês a mês: o tom
55 · Marielle e as MULHERES NEGRAS NA POLÍTICA mês a mês: o tom
  • Positivo
  • Negativo
  • Neutro

O gráfico mede a composição mensal do engajamento (curtidas, comentários e compartilhamentos, isto é, exposição) segundo a valência — o sentimento geral do texto, positivo, negativo ou neutro — das publicações que cruzam o nome de Marielle Franco com o campo das mulheres negras na política, e o que ele revela é uma inversão de tom que nenhuma leitura de volume captaria: o discurso em torno do nome deixa de ser predominantemente afirmativo e passa a ser predominantemente negativo, sem que isso signifique recuo da causa, e sim deslocamento do eixo do debate da celebração do legado para a denúncia da violência e da impunidade. Nos meses em que o engajamento se concentra, a valência positiva domina com folga — 83,6% do engajamento do mês em julho e 67,0% em agosto —, mas em setembro a relação se inverte e o negativo assume 54,8% do mês, com o positivo caindo a 12,8% e o neutro subindo a 32,4%; os meses anteriores registram percentuais residuais, sem massa de engajamento que sustente leitura de composição. O que esse movimento sugere é que o nome de Marielle funciona no debate público como um repertório de duas gramáticas: quando a conversa é sobre legado, representatividade e memória, o tom é de orgulho e esperança; quando a conversa é sobre julgamento, mandantes e violência política de gênero, o tom é de indignação e tristeza — e é essa segunda gramática que ganha tração quando o assunto entra na agenda quente. Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico aporta um indicador de qualidade do discurso que não se confunde com volume: a mesma causa pode ser celebrada ou lamentada, e a passagem de uma a outra mede menos a força do nome do que a temperatura institucional em que ele é invocado — quando o negativo cresce e o neutro informativo se expande, o debate migra da afirmação de direitos para a cobrança de responsabilização, o que é sinal de que a pauta da justiça por Marielle voltou a ocupar o centro da conversa pública.

56 · Vulnerabilidade democrática por tipo de ator no debate sobre Marielle
56 · Vulnerabilidade democrática por tipo de ator no debate sobre Marielle
  • Baixa
  • Média
  • Alta

A alta vulnerabilidade democrática no discurso sobre Marielle Franco é fenômeno de influenciadores, não de políticos: entre os influenciadores, 8,5% do engajamento que produzem recai em textos de alta vulnerabilidade, contra 2,7% entre os políticos, e são os influenciadores que respondem por 58,4% de todo o engajamento do segmento de alta vulnerabilidade — mais que o triplo dos 18,5% dos políticos. O gráfico cruza quem publica com o grau em que o texto põe as normas democráticas em disputa, medido em três níveis, e o dado que salta é a assimetria entre os campos: políticos concentram-se no registro médio (61,2% do engajamento que geram) e influenciadores dividem-se quase meio a meio entre o médio (47,1%) e o baixo (44,4%), com a alta vulnerabilidade aparecendo como franja minoritária em ambos, mas desproporcionalmente mais pesada entre os influenciadores. Vale dizer: o registro de ruptura institucional, quando circula, circula pela voz de quem não tem mandato — e é justamente essa a informação que um índice qualitativo de democracia precisa capturar, porque mede não o volume do assunto, mas quem o enquadra como ameaça às regras do jogo. A imprensa, por sua vez, distribui-se de forma quase equilibrada entre baixa (51,6%) e média (48,3%), com a alta vulnerabilidade praticamente ausente (0,1%), o que sugere que o noticiário acompanhado trata o caso Marielle sobretudo como matéria de rotina institucional e de conflito regulado, não como ruptura democrática — e essa diferença de registro entre quem informa e quem mobiliza é, ela mesma, um achado sobre a qualidade do debate.

57 · Polarização do discurso por tipo de ator
57 · Polarização do discurso por tipo de ator
  • Influenciador
  • Político
  • Usuário genérico
  • Mídia jornalística
  • Empresa
  • Jornalista (perfil individual)
  • Movimento social
  • Artista / cultura
  • ONG / terceiro setor
  • Demais categorias

A polarização moderada concentra a exposição dominante do nome de Marielle Franco, e são políticos e influenciadores que a sustentam. O gráfico cruza o grau de polarização do discurso — a intensidade do antagonismo "nós contra eles" que o texto carrega, aqui em baixa, moderada ou alta — com o tipo de ator que publica, medido por engajamento, ou seja, pela exposição que cada combinação acumula. Do total de engajamento do recorte, 29,6% vêm de políticos em polarização moderada e 26,7% de influenciadores no mesmo grau: juntos, respondem por mais da metade de toda a exposição que o nome de Marielle mobiliza. Dentro de cada tipo de ator, a composição é ainda mais reveladora: 76,5% do engajamento dos políticos e 67,4% do engajamento dos influenciadores estão no grau moderado. Não é a exacerbação que move o nome de Marielle — é a controvérsia contida, o litígio de memória que se trava sem romper o vocabulário institucional.

A polarização alta, quando aparece, é fenômeno de influenciadores, não de políticos: 43,1% do engajamento dos influenciadores está no grau alto, contra 28,2% do engajamento dos políticos. A mídia jornalística, por sua vez, é quase toda polarização baixa — 92,4% do seu engajamento —, e o mesmo vale para movimentos sociais e terceiro setor, integralmente no grau baixo. Há, portanto, uma divisão de trabalho discursivo: a imprensa e a sociedade civil organizada tratam o nome no registro do relato e da memória, enquanto a disputa acirrada fica com quem vive de atenção. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é preciso: a exposição majoritária em torno de Marielle não é capturada por discurso de alta polarização, o que sugere que o nome funciona menos como gatilho de ruptura e mais como campo de disputa regulada — e que o risco de degradação do debate, se vier, virá dos influenciadores, não dos políticos.

58 · Confiança institucional de quem fala do nome, por tipo de ator
58 · Confiança institucional de quem fala do nome, por tipo de ator
  • Desconfiança
  • Confiança seletiva
  • Confiança

A desconfiança institucional que atravessa o nome de Marielle Franco é produzida sobretudo por quem tem mandato e por quem vive de audiência: entre os políticos que publicam sobre ela, 94,1% do engajamento do tipo recai sobre textos de desconfiança, e entre os influenciadores o mesmo padrão responde por 88,8% — juntos, esses dois campos concentram 82,7% de todo o engajamento do recorte. A confiança seletiva, que é o padrão de quem não rejeita a instituição em bloco mas distingue quais merecem fé, aparece como contraponto minoritário e quase sempre fora do campo político: responde por 11,2% do engajamento dos influenciadores e por 65,0% do dos usuários comuns, enquanto entre os políticos fica em 5,9%. A confiança plena, por sua vez, não sustenta praticamente nada do que circula: some entre políticos, influenciadores, jornalistas e mídia. Vale dizer: o que o gráfico mede não é a opinião pública sobre as instituições, e sim o padrão de confiança que cada tipo de autor imprime ao falar de Marielle — e o resultado é um discurso em que a memória da vereadora assassinada funciona como prova da falência institucional, não como demanda dirigida a instituições capazes de responder.

Para um índice qualitativo de democracia, este é um achado de mão dupla. De um lado, a desconfiança concentrada em políticos e influenciadores indica que o nome de Marielle é mobilizado como acusação ao Estado — o que é coerente com o caso: oito anos sem resposta definitiva sobre os mandantes convertem a memória em cobrança. De outro, a quase ausência de confiança plena e a fraqueza da confiança seletiva no campo político sugerem que o debate sobre o nome não constrói destinatário institucional: não há, no discurso que mais engaja, a formulação de uma instituição à qual se pede reparação. A mídia jornalística é o único campo em que a confiança seletiva predomina, com 85,2% do engajamento do tipo, e os jornalistas individuais aparecem integralmente na desconfiança — o que reforça a leitura de que o nome de Marielle circula menos como pauta de responsabilização institucional e mais como emblema de um sistema que falhou.

59 · Exigência de prova: que padrão de evidência cada tipo de ator cobra
59 · Exigência de prova: que padrão de evidência cada tipo de ator cobra
  • Moderada
  • Baixa
  • Alta

A exigência de prova no debate sobre Marielle Franco é um atributo dos influenciadores e dos políticos, não da imprensa: são esses dois campos que concentram a exposição, e é neles que o padrão de evidência se decide. O gráfico cruza quem publica com o grau de exigência de prova do texto — a régua que mede quanto o texto cobra ou apresenta evidência verificável, não se o que ele afirma é verdadeiro. Entre os influenciadores, a exigência moderada responde por 69,8% do engajamento que o campo mobiliza, contra 29,9% da baixa e uma fração residual da alta; entre os políticos, o padrão se inverte com clareza: a exigência baixa responde por 59,6% do engajamento do campo, a moderada por 38,1% e a alta por apenas 2,3%. Vale dizer: o campo que mais fala do nome de Marielle é também aquele em que a afirmação sem lastro rende mais exposição, e a exigência alta, entre políticos, é praticamente inexistente. A imprensa e os jornalistas individuais operam quase inteiramente em exigência moderada — 98,6% e 100,0% do engajamento de cada campo, respectivamente —, o que desenha uma divisão do trabalho probatório: o rigor evidencial fica com quem relata, enquanto a afirmação assertiva, sem cobrança de prova, fica com quem disputa a narrativa. Para um índice qualitativo de democracia, este gráfico aporta uma medida incômoda e precisa: a qualidade do debate sobre Marielle não se degrada por ausência de evidência em geral, mas por sua concentração assimétrica — a baixa exigência de prova é o registro dominante justamente nos campos de maior alcance político, e é ali que a memória da vereadora assassinada se converte em argumento sem ônus de demonstração.

60 · A disputa sobre a verdade: tipos de desinformação acionados, por posicionamento
60 · A disputa sobre a verdade: tipos de desinformação acionados, por posicionamento
  • Oposição
  • Neutro informativo

A disputa sobre a verdade em torno do nome de Marielle Franco é, neste recorte, quase inteiramente uma arma da oposição: entre os textos que acionam algum tipo de disputa informacional, a suspeita conspiratória responde por 52,7% do total e a acusação de fake news por 29,6%, enquanto a contestação da mídia aparece em 16,8% e a contestação do governo em 0,9% — e todas essas fatias se concentram em publicações de oposição, com o neutro informativo registrando apenas 0,1% na acusação de fake news e nada nas demais. Vale dizer: quando o nome de Marielle entra no terreno da disputa sobre a verdade, ele entra pela voz de quem se opõe a algo — e o que se contesta é, sobretudo, a versão oficial e a narrativa da imprensa, não a existência do crime. A suspeita conspiratória, que mede a insinuação de arranjo oculto por trás dos fatos, e a contestação da mídia, que mede o questionamento à credibilidade jornalística, somadas, respondem por mais de dois terços do engajamento desse campo: o que se mobiliza não é a dúvida sobre Marielle, mas a dúvida sobre quem conta a história de Marielle. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é ambíguo e por isso mesmo valioso — de um lado, a concentração da disputa informacional na oposição sugere que a memória de Marielle funciona como ponto de apoio de uma desconfiança institucional difusa, em que a cobrança de justiça se converte em suspeita sobre as instituições que deveriam produzi-la; de outro, a ausência de contestação da ciência e a presença marginal da contestação do governo indicam que o campo não nega os fatos do caso, apenas disputa a sua interpretação. É uma disputa sobre a verdade que não nega o assassinato: nega a versão de quem o investiga.

61 · Mês a mês: a confiança institucional de quem fala de Marielle
61 · Mês a mês: a confiança institucional de quem fala de Marielle
  • Desconfiança
  • Confiança seletiva
  • Confiança

A confiança institucional de quem fala de Marielle Franco é hoje majoritariamente desconfiança, e a série mensal mostra que esse traço se consolidou justamente quando o nome voltou ao centro do debate. O gráfico mede a confiança institucional — o padrão com que cada texto se refere às instituições mencionadas, entre confiança, confiança seletiva (crer em algumas instituições e não em outras) e desconfiança — e o faz em composição de cada mês, ponderada pelo engajamento, ou seja, pela exposição que cada posição alcançou. Nos meses de agosto e setembro de 2026, os únicos com percentuais expressivos no período, a desconfiança responde por 71,9% e depois por 87,1% do engajamento do mês, enquanto a confiança seletiva cai de 28,1% para 12,9%; a confiança plena não chega a pesar em setembro. Vale dizer: não é que o nome de Marielle esteja cercado de descrédito nas instituições em si — é que o discurso que mais circula quando se fala dela trata as instituições com suspeita, e essa suspeita se aprofundou entre um mês e outro, exatamente quando o caso ganhou tração pública. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é um componente de peso: a memória de Marielle, que nasceu como demanda por justiça e por responsabilização do Estado, aparece hoje embalada por um discurso que desconfia das instituições encarregadas de fazê-la — o que desloca a conversa da cobrança de reparação para a dúvida sobre quem repara. É a confiança seletiva, aliás, que merece atenção: ela não é fé cega nem rejeição, é a postura de quem distingue entre as instituições que funcionam e as que não, e o fato de ela encolher de 28,1% para 12,9% sugere que a distinção está sendo substituída pela desconfiança generalizada.

62 · Mês a mês: o grau de polarização do discurso
62 · Mês a mês: o grau de polarização do discurso
  • Moderada
  • Baixa
  • Alta

A série mensal do grau de polarização do discurso em torno do nome de Marielle Franco mostra uma inflexão clara: o debate sai de um patamar predominantemente de baixa polarização e caminha para uma composição em que a polarização moderada passa a responder pela maior fatia do engajamento. Em julho de 2026, a polarização baixa concentra 74,6% do engajamento do mês e a moderada, 25,4%; em agosto, a baixa recua para 55,2%, a moderada sobe a 34,3% e a alta aparece com 10,5%; em setembro, a moderada assume a dianteira com 65,2%, a baixa cai a 20,7% e a alta avança para 14,1%. A leitura é de composição, não de volume: o que muda, mês a mês, é o peso relativo de cada grau dentro do próprio mês, e o movimento é inequívoco — o tom baixo perde terreno de forma contínua, enquanto moderado e alto ganham. Para um índice qualitativo de democracia, o dado é substantivo: o nome de Marielle, que costuma operar como significante de memória e de luto, passa a circular com crescente carga de antagonismo, e a alta polarização, ausente em julho, já responde por 14,1% do engajamento em setembro.

Vale registrar o que o gráfico não diz: os meses anteriores a julho de 2026 aparecem com percentuais zerados e não descrevem composição alguma, de modo que a série só se torna legível a partir de julho. O que se observa nesse trecho é uma escalada — a polarização moderada mais que dobra sua participação entre julho e setembro, e a alta, que não existia, passa a pesar. Se a hipótese do painel é que a qualidade democrática do discurso se mede também pela intensidade do antagonismo, este gráfico oferece um dos indicadores mais sensíveis: não o quanto se fala de Marielle, mas sob que grau de tensão se fala. A tendência sugere que o nome, ao entrar em disputa mais aguda, deixa de funcionar apenas como símbolo consensual de justiça e memória e passa a operar também como campo de confronto — o que, num índice de democracia, é sinal de atenção.

63 · Mês a mês: a disputa sobre a verdade
63 · Mês a mês: a disputa sobre a verdade

A disputa sobre a verdade, quando o nome de Marielle Franco entra em cena, não é uma disputa sobre fatos: é uma acusação de má-fé lançada contra quem investiga, e é isso que este gráfico mede ao distribuir o engajamento total do recorte entre os tipos de disputa informacional — acusação de notícia falsa, suspeita de conspiração, contestação da mídia, contestação do governo, boato e censura ou silenciamento. A acusação de notícia falsa responde por 41,1% do engajamento do recorte e a suspeita conspiratória por 39,5%, somando quatro quintos de toda a exposição; a contestação da mídia fica com 18,7%, a contestação do governo com 0,7% e a censura ou o silenciamento com 0,0%, enquanto o boato não aparece. Ou por outra: o que mobiliza não é a dúvida sobre o crime, mas a imputação de que alguém — a Polícia Federal, o ministro, a imprensa — age de má-fé, e a suspeita conspiratória é o veículo dessa imputação. O dado ganha sentido no episódio que domina o período: o afastamento, determinado por André Mendonça, do diretor de inteligência da Polícia Federal, Leandro Almada, o delegado que desvendou o caso Marielle, episódio que concentra o pico de 8 de setembro, quando a participação do recorte no total do dia sobe a 1,6% e a oposição alcança 83% do posicionamento. É aí que a suspeita conspiratória deixa de ser abstração e vira frase: "Há uma guerra aberta em curso", escreve Ricardo Cappelli; "Mexer na PF para atingir quem investiga poderosos é um ataque ao Estado de Direito", escreve Lázaro Rosa. A acusação de notícia falsa, por sua vez, é o outro lado da mesma moeda — a peça que o campo governista usa para desqualificar a versão adversária, e que aqui responde pela maior fatia do engajamento.

Vale dizer o que isso aporta a um índice qualitativo de democracia: quando a disputa informacional se organiza assim, com a acusação de falsidade e a suspeita de conspiração concentrando a exposição e a contestação da mídia ocupando o terceiro lugar, o que se mede não é a circulação de mentiras, mas a degradação do padrão de prova — a exigência de prova é baixa em 59% das publicações, e a causalidade atribuída é direta em 83%, ou seja, o debate prefere o culpado nomeado à explicação estrutural. A confiança institucional é de desconfiança em 77% dos textos, e a polarização, embora moderada em 53%, é afetiva-identitária em 43% e institucional em 38% — o que se contesta não é um dado, é a instituição que o produz. Nesse arranjo, a memória de Marielle funciona como prova moral: o nome dela é o que dá lastro à acusação de que a máquina pública foi capturada, e por isso a suspeita conspiratória não precisa de evidência para circular — precisa apenas do prestígio de quem foi assassinado impunemente por quem deveria investigar. É esse o achado que este gráfico entrega ao índice: a disputa sobre a verdade, no campo em que o nome de Marielle aparece, não é uma disputa epistêmica, é uma disputa de legitimidade, e mede menos a circulação de falsidades do que a disposição dos atores a desqualificar a fonte antes de examinar o que ela diz.

64 · Mês a mês: os valores republicanos exigidos
64 · Mês a mês: os valores republicanos exigidos
  • Accountability
  • Separação público-privado
  • Bem comum
  • Participação cívica
  • Defesa da lei impessoal
  • Combate ao patrimonialismo
  • Transparência

A exigência de prestação de contas (accountability) torna-se o eixo dominante dos valores republicanos mobilizados quando o nome de Marielle Franco entra no debate, e a série mensal mostra que essa centralidade não é constante histórica, mas resultado de uma inflexão recente. Nos meses iniciais do histórico, a composição aparece dispersa e instável, com bem comum e participação cívica alternando-se entre as poucas categorias acionadas e a prestação de contas ausente em vários deles; a partir de julho de 2026 o quadro se reorganiza, com participação cívica e bem comum dividindo igualmente a composição daquele mês, e em agosto a prestação de contas já responde por 24,3% do mês, atrás apenas da participação cívica, que fica com 40,4%, enquanto bem comum recua para 23,6%, o combate ao patrimonialismo aparece com 7,4% e a separação entre público e privado com 4,2%. A virada decisiva vem em setembro, quando a prestação de contas salta para 69,7% da composição do mês, a separação entre público e privado sobe para 16,5%, a defesa da lei impessoal aparece com 5,7%, o bem comum cai para 4,7%, a participação cívica para 1,5%, o combate ao patrimonialismo para 1,1% e a transparência para 0,9% — ou seja, o discurso em que o nome de Marielle comparece deixa de se organizar em torno da memória e da mobilização cívica e passa a se organizar em torno da cobrança de responsabilização, com a fronteira entre o público e o privado ganhando peso inédito.

Para um índice qualitativo de democracia, o que este gráfico aporta é a evidência de que a gramática republicana acionada pelo nome de Marielle migrou da celebração do legado para a exigência de que as instituições prestem contas e de que a coisa pública não se confunda com interesses privados — movimento que, no vocabulário dos valores republicanos, desloca o acento da participação para a responsabilização e a impessoalidade da lei. A leitura em composição mensal, e não em volume, é o que permite afirmar essa mudança de qualidade: o que se altera não é quanto se fala, mas sob quais valores se fala, e a concentração de quase sete décimos do mês de setembro na prestação de contas, com a separação público-privado e a defesa da lei impessoal ganhando espaço enquanto bem comum e participação cívica encolhem, sugere que o nome de Marielle passou a funcionar no debate como ponto de cobrança institucional, e não apenas como símbolo de mobilização.

65 · Confiança, coragem, força e esperança (CCFE) no debate sobre Marielle, por tipo de ator
65 · Confiança, coragem, força e esperança (CCFE) no debate sobre Marielle, por tipo de ator
  • Neutro
  • Esperança
  • Simpatia
  • Medo
  • Frustração

O clima de confiança, coragem, força e esperança que cerca o nome de Marielle Franco é construído sobretudo por quem tem menos a perder institucionalmente: influenciadores e políticos respondem pela quase totalidade da exposição, e o estado que emerge desse conjunto é o neutro, não a esperança. O CCFE, modelo que mede de −3 a +3 a confiança, a coragem e a força atribuídas a um ator e faz emergir a esperança quando as três são positivas, aparece aqui como atribuição de quem publica a quem é citado — e o que se vê é que influenciadores concentram 33,4% do engajamento total do recorte, com 84,8% de sua própria base no estado neutro; políticos vêm em seguida, com 26,5% do total e 53,5% de sua base igualmente neutra. A esperança existe, mas é minoritária e desigualmente distribuída: entre políticos ela responde por 24,4% da base do tipo, e entre influenciadores por 15,2%. Já a simpatia é fenômeno quase exclusivamente político: 93,2% de tudo o que se enquadra nesse estado vem de políticos, que destinam 22,1% de sua base a ele. O que este gráfico aporta a um índice qualitativo de democracia é a constatação de que o nome de Marielle circula majoritariamente em registro informativo e afetivo brando, não em mobilização esperançosa: a memória que se constrói é mais de relato e simpatia do que de confiança ativa, e são os atores com maior alcance — influenciadores e políticos — que definem esse tom.

66 · Permeabilidade climática: quanto a pauta ambiental atravessa o debate sobre Marielle, por posicionamento
66 · Permeabilidade climática: quanto a pauta ambiental atravessa o debate sobre Marielle, por posicionamento
  • Oposição
  • Apoio

O cruzamento entre permeabilidade climática e posicionamento mostra que o nome de Marielle Franco circula no debate quase inteiramente por uma via condicional: 98,5% do engajamento total do recorte está em textos de permeabilidade condicional, aqueles que acolhem a pauta ambiental sob condições em vez de rejeitá-la ou defendê-la como eixo próprio. A permeabilidade climática mede quanto um texto se abre à agenda ambiental, e o dado é inequívoco: a defesa aberta da pauta responde por 1,1% do engajamento, e a rejeição não aparece. Ou por outra: o ambiental não é o idioma em que se fala de Marielle, é uma linguagem que se admite quando o assunto a convoca.

A distribuição interna confirma a assimetria. Entre os textos de permeabilidade alta, 73,3% do engajamento vem de publicações de apoio ao tema central, contra 26,7% de oposição; entre os de permeabilidade condicional, praticamente a totalidade do engajamento é de oposição, com o apoio ausente. Vale dizer: quem defende a pauta ambiental tende a se posicionar a favor do que o nome representa, enquanto a oposição ao tema central não rejeita o clima, apenas o mantém em suspenso. Para um índice qualitativo de democracia, o achado é preciso: a pauta ambiental não estrutura o posicionamento sobre Marielle, funciona como pano de fundo condicional, e a defesa climática explícita aparece como marcador de campo, não como eixo do debate.

67 · Anúncios pagos que citam Marielle: quem anuncia, quem paga, quanto e para quem

AnúnciosPáginasFinanciadoresGasto estimadoAtivosEstados alcançados
1333229R$ 152.900 – R$ 210.1673031
Audiência por estado (peso da entrega)
Audiência por estado (peso da entrega)
Audiência por idade × gênero (anúncios)
Audiência por idade × gênero (anúncios)
Faixas de gasto (R$)
Faixas de gasto (R$)
Audiência estimada por faixa
Audiência estimada por faixa
FinanciadorAnúnciosGasto estimado
FUNDO BAOBA39R$ 900 – R$ 4.761
(sem financiador declarado)14R$ 133.500 – R$ 175.786
ELEIÇÃO 2026 ANIELLE FRANCISCO DA SILVA DEPUTADO FEDERAL12R$ 14.100 – R$ 18.088
PADRE PEDRO BALDISSERA10R$ 0 – R$ 990
ANIELLE FRANCO7R$ 1.000 – R$ 1.693
PAMELA VINDILINO6R$ 0 – R$ 594
ELEICAO 2026 LUIZ DE FRANCA E SILVA MEIRA DEPUTADO FEDERAL5R$ 0 – R$ 495
VANESSA DA ROSA5R$ 0 – R$ 495
BETH SAHAO4R$ 0 – R$ 396
FUNDACAO TIDE AZEVEDO SETUBAL4R$ 100 – R$ 496
HORA JURIDICA3R$ 0 – R$ 297
DEPUTADA LUCIANA GENRO - ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RS2R$ 200 – R$ 398

O dinheiro pago para associar o nome de Marielle Franco a uma mensagem política não se distribui pela sociedade: concentra-se em poucas mãos, e a assimetria entre quem paga e quem é alcançado é o dado mais eloquente deste gráfico. Do total gasto no período, a maior fatia declarada vem de uma única página — Brasil Paralelo, que responde pela quase totalidade do gasto máximo registrado, enquanto a esmagadora maioria dos anúncios se concentra na faixa inferior a cem reais. Ou seja: o volume de anunciantes é pulverizado, mas o poder de fogo é oligopolizado. Quem fala sobre Marielle pagando pouco são o Fundo Baobá, o Instituto Marielle Franco por meio de Anielle Franco, o Padre Pedro Baldissera, Pâmela Vindilino, Vanessa da Rosa, Beth Sahão, a Fundação Tide Setubal e a deputada Luciana Genro — um campo de memória, direitos humanos e mobilização, com gasto modesto e entrega capilar. Quem fala gastando muito é uma única operação de mídia, e essa distinção entre o campo da memória e o campo do grande investimento é o que este gráfico aporta a um índice qualitativo de democracia: não basta medir se o nome de Marielle circula, é preciso medir quem pode comprar a circulação.

A distribuição da audiência reforça a leitura. A entrega por estado concentra-se no Rio de Janeiro, seguido de Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais — a geografia da memória de Marielle não é nacional, é carioca com ramificações. E o público dominante é jovem e feminino: as mulheres de 25 a 34 anos e de 35 a 44 anos, somadas às de 65 anos ou mais, formam a maioria da audiência alcançada, enquanto os homens aparecem em todas as faixas com peso muito menor. Há, portanto, um alvo declarado: mulheres, de várias gerações, com pico na faixa adulta jovem. Para um índice de democracia, isso importa porque revela que a disputa pelo nome de Marielle se dá, no campo pago, entre uma operação de grande porte que compra alcance e um conjunto de atores cívicos que compra pouco mas fala para quem importa — e que a audiência efetivamente atingida é majoritariamente feminina, o que sugere que a memória de Marielle continua sendo, antes de tudo, uma pauta de mulheres.

68 · Quem paga os anúncios que citam Marielle, e com que tom
68 · Quem paga os anúncios que citam Marielle, e com que tom
  • Positivo
  • Negativo

O financiamento dos anúncios que invocam o nome de Marielle Franco é quase integralmente positivo, e o que esse gráfico revela é menos uma disputa de tom do que uma apropriação de legado: a esmagadora maioria de quem paga para falar dela o faz para se associar à sua memória, não para atacá-la. Entre os financiadores declarados, o FUNDO BAOBA responde por 38,1% do total de anúncios do recorte e por 44,0% de tudo o que é positivo, seguido por dois anunciantes ligados à disputa eleitoral de 2026 — a candidatura de Anielle Francisco da Silva a deputada federal e o Padre Pedro Baldissera, cada um com 10,2% do total e 11,9% do positivo —, além de Pamela Vindilino (6,1% do total), Anielle Franco (6,1%), Vanessa da Rosa (5,1%) e uma série de financiadores menores, todos com 1,0% do total. O contraste é nítido quando se olha o segmento negativo: ele se concentra em pouquíssimos pagadores — a candidatura de Luiz de Franca e Silva Meira a deputado federal (5,1% do total, 35,8% de todo o negativo), Beth Sahão (4,1% do total, 28,6% do negativo), Mônica Benício (2,0% do total, 14,3% do negativo) e, residualmente, Valmir Ramos Barreto Junior e Vinicius Cranio —, o que indica que a crítica paga ao nome de Marielle não é uma frente organizada, mas iniciativas isoladas. Vale notar que a Fundação Tide Azevedo Setubal aparece dividida entre os dois tons, com metade de seus anúncios em cada segmento, caso raro num painel em que o positivo domina.

Para um índice qualitativo de democracia, o dado é revelador em dois sentidos. Primeiro, porque mostra que o nome de Marielle funciona no mercado pago da política como ativo de legitimidade — ser associado a ela é vantagem, e quem paga para citá-la quer, sobretudo, herdar algo de sua causa, o que sugere que a memória da vereadora se consolidou como referência moral positiva no debate público. Segundo, porque a presença de candidaturas de 2026 entre os financiadores — Anielle, Luiz de Franca e Silva Meira, Valmir Ramos Barreto Junior, Juliano Medeiros, Luciana Boiteux de Figueiredo Rodrigues — revela que o nome já circula como capital eleitoral antes mesmo da campanha, sendo mobilizado tanto por quem se apresenta como herdeiro de sua luta quanto, em menor escala, por quem constrói oposição a partir dele. A baixa concentração do negativo e a alta do positivo não significam consenso: significam que a disputa sobre o legado de Marielle, quando passa pelo bolso, se dá mais pela tentativa de encarná-lo do que pela de negá-lo — e é isso que um índice de qualidade democrática deve registrar: não a existência de conflito em torno do nome, mas a direção em que esse conflito se organiza. A concentração do tom negativo em poucos pagadores, cada um com participação modesta no total, contrasta com a dispersão do positivo por um número maior de financiadores, o que sugere que a defesa da memória de Marielle é hoje um investimento mais difuso e mais barato politicamente do que o seu ataque. Para o índice, o achado é duplo: de um lado, a vitalidade de um repertório positivo em torno de uma vítima da violência política indica que o campo democrático encontrou nela um símbolo capaz de atrair recursos; de outro, a existência de anúncios negativos, ainda que minoritários, mostra que esse mesmo símbolo é disputado, e que a disputa não se dá apenas no discurso orgânico, mas também no espaço pago. O que este gráfico acrescenta, portanto, é a dimensão do financiamento como termômetro da apropriação: quem paga para citar Marielle revela, mais do que uma posição sobre o caso, uma aposta sobre o que o seu nome vale — e, no conjunto do painel, essa aposta é majoritariamente pela associação, não pela recusa.

69 · O tema Marielle Franco na plataforma: os subtemas e o tom de cada um
69 · O tema Marielle Franco na plataforma: os subtemas e o tom de cada um
  • Negativo
  • Positivo
  • Neutro

O nome de Marielle Franco mobiliza engajamento sobretudo por duas chaves de memória, e não pela cobertura do caso judicial: no conjunto de todo o histórico, as publicações sobre o nome, a memória e as mobilizações em torno dela concentram a quase totalidade da exposição, com 54,6% do engajamento total do tema no tom negativo e 33,1% no tom positivo, somando 87,7% de tudo o que o recorte movimentou; o subtema da investigação, do julgamento e dos mandantes responde por 7,7% no tom negativo, 1,4% no positivo e uma fração residual no neutro. Dentro de cada subtema, porém, a composição se inverte de sentido: no eixo da memória e das mobilizações o tom negativo é 60,1% do engajamento daquele subtema e o positivo 36,4%, enquanto no eixo do caso judicial o negativo salta para 84,0% e o positivo cai para 15,6%. Vale dizer: a memória de Marielle é disputada — celebrada e lamentada quase na mesma proporção —, mas o caso judicial é quase monoliticamente lido como negativo, o que é o esperado de um enquadramento episódico de crime e impunidade, aquele que trata o assunto como episódio concreto de dano e responsabilidade individual, e não como questão estrutural. Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico aporta uma distinção que os agregados de volume não fariam: o nome de Marielle funciona no debate público menos como símbolo de um processo judicial e mais como repertório de memória e mobilização, e é justamente nesse terreno que o discurso se divide — a assimetria entre a composição quase unânime do eixo judicial e a partição do eixo memorial sugere que a disputa democrática em torno do nome se trava na celebração do legado, não na apuração do crime.

70 · O tema Marielle Franco mês a mês: os papéis atribuídos (MAPAM)
70 · O tema Marielle Franco mês a mês: os papéis atribuídos (MAPAM)
  • Vítima
  • Agressor
  • Protetor
  • Comunidade
  • Reparador
  • Estrutura

A série mensal dos papéis actanciais-morais atribuídos a Marielle Franco mostra que, quando o nome entra no debate com força, o que se disputa não é a memória da vereadora, mas a autoria do crime e a identidade de quem sofre: em julho de 2026, o papel de vítima responde por 42,4% do engajamento do mês e o de agressor por 34,7%; em agosto, vítima sobe a 45,9% e agressor a 37,6%; em setembro, vítima alcança 47,7% e agressor recua a 33,6%, enquanto o papel de estrutura — a leitura que atribui o dano a um arranjo institucional e não a indivíduos — salta de 1,8% em agosto para 7,7% em setembro, e o de protetor cai de 15,8% em julho para 7,5% em agosto e 5,4% em setembro. O MAPAM, o Modelo de Análise de Papéis Actancial-Morais, mede exatamente isso: quem o autor do texto aponta como quem sofreu, quem causou, quem deveria proteger, quem deve reparar, quem é afetado coletivamente e que estrutura reproduz o dano. A composição é estável na hierarquia e reveladora na cauda: vítima e agressor concentram mais de três quartos do engajamento em todos os meses de pico, protetor e reparador — as duas posições que implicariam responsabilização institucional e reparação — ficam abaixo de um sexto, e a estrutura, que nomearia o arranjo que produziu e sustenta o crime, só ganha peso relativo em setembro, quando o noticiário passa a tratar do afastamento de um delegado da Polícia Federal que investigou o caso e da decisão do Supremo que condenou os assassinos a indenizações. Os meses anteriores, de novembro de 2025 a junho de 2026, aparecem com percentuais zerados e sem base classificada, o que significa apenas que o recorte não trouxe publicações nesses meses, não que o assunto tenha desaparecido do debate.

Para um índice qualitativo de democracia, o gráfico aporta uma medida do que se poderia chamar de personalização da responsabilidade: o discurso em que o nome de Marielle comparece é majoritariamente construído sobre a oposição entre uma vítima e um agressor, com pouca atribuição a estruturas e quase nenhuma a protetores e reparadores, o que sugere que a conversa pública sobre o caso privilegia a culpa individualizada em detrimento da pergunta sobre as instituições que permitiram o crime e sobre quem deve repará-lo. A inflexão de setembro, com a estrutura subindo de 1,8% para 7,7% do engajamento do mês, indica que a judicialização e a discussão sobre a Polícia Federal deslocaram parte do debate para o terreno institucional, ainda que de forma modesta e sem reverter a centralidade da díade vítima-agressor. O que o gráfico mede, portanto, não é a lembrança de Marielle, mas a gramática moral com que o debate a convoca: uma gramática de dano e de culpa, em que a vítima é o polo mais acionado e o agressor o seu par necessário, e em que as posições que exigiriam do Estado proteção e reparação permanecem marginais. Para o índice, isso é um achado substantivo: a qualidade democrática do discurso em torno do nome não se mede pela intensidade da comoção, e sim pela capacidade de o debate ultrapassar a condenação individual e alcançar a pergunta institucional — e é justamente essa passagem que a série mensal registra como incipiente, concentrada em um único mês e ainda minoritária diante do peso persistente da vitimização e da acusação pessoal.